Naquela vida em que eu só sabia ser feliz


Naquela vida em que eu só sabia ser feliz, passava os dias com a minha flauta para lá e para cá. Papai me dizia: "Filha, nem tudo são flores, tome cuidado para não deixar a tristeza de lado por muito tempo, ela pode vir atrás de você!" Só que eu não entendia nada daquilo. Queria mesmo era ser feliz com todas as minhas forças e nada, nem ninguém iria me impedir. Eu dançava, corria, cantava, pintava e todas as coisas que me eram permitidas fazer. Todas elas eu fazia. Tinha sede de viver

Casei. Quando tinha meus 18 anos, quase muito velha pra casar, me apaixonei, ele era lindo e radiante, talvez com tanta vontade de viver quanto eu. Pele aveludada, olhos da cor do grão de café, cabelos negros como o pelo de um leopardo. Em outra vida devia ter sido um, seu olhar me paralizou como um desses animais paraliza sua preza que não sabe se fica e aceirta a morte ou se arrisca tudo e corre. Essa foi a minha sorte, eu corri. Corri para seus braços, de onde jamais gostaria de sair. Casamos por amor. Meu pai permitiu. Não era algo comum, normalmente os pais escolhiam com quem os filhos iriam se casar e o amor viria aos poucos. 

Sei que todos estavam temerosos com o casamento. Do mesmo modo que eu costumava correr para as coisas, costumava também correr para longe delas. Nunca fui apegada a nada além da minha liberdade e da felicidade de viver a vida intensamente nos seus mínimos detalhes. Esse foi meu grande erro. 

Engravidei, mas não queria estar grávida. Tirei. Ninguém nunca soube, nem do seu inicio, nem do seu fim. Então depois de alguns meses novamente. Voltei a tirar. Não sei quantas vezes fiz isso. Era jovem, tinha tempo para dar um filho ao meu marido. Nós éramos felizes como estávamos. Quando completei 21 anos todos estavam esperando que a qualquer momento eu anunciasse a gravidez. Foi quando ela veio. Minha sogra contara quantos dias haviam se passado e chegou ao pé do meu ouvido "fazem 40 dias que seu ciclo não desce". Eu sabia, estava esperando e ponderando se aquele deveria ser o momento. Fingi estar feliz, ela anunciou para todos que eu carregava a quarta geração da família no ventre. Meu marido não se aguentava de tanta felicidade. 

Eu fui mimada, ganhava tudo nas mãos, não me deixavam fazer nada que envolvesse correr ou pegar peso. Eu era infeliz assim, privada das coisas que mais amava. Naquele dia de verão, quando o outono se aproximava eu senti uma dor muito forte no ventre. Senti um liquido quente descendo por entre minhas pernas. Eu estava perdendo o bebê. Chamaram o médico, a curandeira, todas as mulheres ficaram a minha volta. Estava tudo bem comigo, mas o bebê havia ido embora. Pediram para eu não engravidar novamente tão cedo, mas eu não ouvi. No outro mês estava tão feliz que me deitei com meu marido de forma mais íntima e intensa, engravidei novamente. E, novamente vim a perder. Foram 20 meses tentando, um aborto atrás do outro. Eu não segurava os bebês. 

Certa vez perguntei para uma velha senhora se isso poderia ser causado pelos constantes abortos anteriores, ela disse que provavelmente não. Que era mais garantido que eu pensasse que a criança sabia que eu não a queria. E eu realmente não a queria. Portanto, quando ela começava a ficar madura, se soltava do pé, caindo por entre meus pés em forma de sangue e líquidos. 

Aos 23 anos meu marido casou-se novamente e eu fui devolvida ao meu velho pai. Ele foi obrigado pela família a fazer isso. Eu já não era nada feliz. Não cantava, não dançava, fazia somente o que me era pedido em silencio e resignação. Eu desgastei a porção de alegria e irresponsabilidade da minha vida. Hoje, consigo ver que a tristeza realmente veio me buscar, de tanto que eu fugia de seus olhos atentos e inteligentes. 

"Não tenham medo crianças", eu sempre digo para meus sobrinhos. "A tristeza sempre chega, sempre te encontra, então, apenas viva a dor, sinta-a no momento que ela tiver que ser sentida, nem mais, nem menos. Aprendam a não temer seus paços pesados e desengonçados. Andem ao seu lado e lhes falem sobre suas dúvidas e desamores, ela sempre nos entende"

Isso não é uma história sobre aborto, filhos, felicidade por ser mãe ou uma mulher completa. Isso é apenas um relato de quem não se manteve atenta as suas próprias oportunidades de ser humana. Uma história de alguém que fugiu todos os anos da tristeza e da dor. Alguém que foi contra a lei natural da vida que diz que a dor deve ser sentida


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Palavra: Delícia

12 comentários:

  1. Nossa, de alguma maneira essa pequena história me envolveu, queria que essa personagem fosse mais explorada em uma história maior, ela parece ter potencial!
    Vi que está lendo "O Despertar de Minerva", é bom? O que está achando?

    Com amor,
    Bruna Morgan

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    1. Ah, Bruna, que bom. Eu fiquei meio assim, já que é um assunto delicado e que está muito em palta nos dias de hoje. Já estava esperando críticas sobre isso.
      Mas, sim, estou lendo. Gostei bastante até onde li (um pouco mais da metade), é rico em histórias e fatos, mas até então não usa muito as representações da deusa. Ela da umas pinceladas falado dos arquétipos e de como "fulana usa o potencial criador como o de Minerva, ou Demeter etc etc".

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  2. Que texto incrível!
    Estou estasiada, sem palavras.
    Eu faço parte do Café com Blog também cheguei até aqui por ele. Tirei a tarde para visitar os posts que mais me chamaram atenção. Que felicidade ter clicado no seu link, eu estou apaixonada por esse texto. Simplesmente não sei o que dizer. Parabéns ♥

    www.ultimobiscoito.com

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    1. Awnn obrigada! Fiquei com medo de ninguém gostar!

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  3. Guria, que texto maravilhoso! Sinceramente achei que fosse sobre você, mesmo. Mas aí eu vi a foto e pensei: nãão, ela não tem mais de 23 anos. Rs. Enfim, de fato a dor precisa ser sentida e é impossível passar a vida fugindo da tristeza. Na verdade, a tristeza é bem importante em diversos aspectos. Ser feliz o tempo todo, do jeito que somos bestas, enjoaria rapidinho.
    Assim como a Bruna, também gostaria de ver essa personagem mais explorada. Curti demais ♥

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    1. Tudo que eu tenho a dizer é Gratidão!!! Espero cumpririr o desafio de explorar mais essa personagem, quem sabe em um livro, não é mesmo?!

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  4. Maravilhoso! Li tantas verdades, tantas questões envolvidas. Eu tenho um esboço de um texto que nunca terminei que também fala de aborto, inclusive a personagem fazia constantemente, mas... acabei deixando parado pois não me senti madura o suficiente para escrever sobre esse assunto.
    O seu está perfeito, um dos mais fortes e bonitos que já li.
    Parabéns!
    bjs
    Simplesmente Ciana

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    1. Ah que bom! Fico feliz por estar recebendo boas críticas sobre esse texto, que na verdade, temi escrever por ser um assunto tão polêmico!

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  5. Que texto, faz a gente parar pra pensar se todas as nossas escolhas foram certas ou não. E claro pensar que a dor por mais insuportável que seja passa, mas precisa ser curtida enquanto durar. Isso nos faz crescer, parabéns pelo texto!

    https://deixacombinado.wordpress.com/

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    1. Sim, a dor nos faz amadurecer e fugir dela só nos distancia da "adultez". Essa é a ideia do texto. <3

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  6. Tanto a dor quanto a alegria nos faz amadurecer e ambas devem ser sentidas para o nosso proprio crescimento.

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    1. Sim, mas uma sem a outra não é nada! Precisa haver um equilibrio!

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