A Fragilidade da Existência Humana


A humanidade não percebe como são, todos, muito frágeis diante as catástrofes climáticas ou perante o tempo. O tempo, esse é a prova de que nenhum corpo resiste mais que, o que? 100 anos? 120? Há quem diga que os humanos podiam viver até 300 anos, isso tudo antes de Prometeu roubar o fogo do Olimpo e entregar a humanidade.

Teria ele nos dado o conhecimento e também o poder de sermos tão vulneráveis fisicamente justamente para que esse conhecimento não nos fizesse semi deuses?

Eu conheci, certa vez, na minha juventude um semi deus. Nada, nem ninguém era páreo para ele. Nada o vencia, nada o amedrontava. Ele vivia a vida na sua plenitude e cheia de coragem. Nos conhecemos em um evento de rua em 1970. Ele vestia jeans azul recém tingido e uma regata branca, que mais parecia transparente sobre seus músculos bem definidos e seu 1,95 de altura. A pele que pedia um toque para que tivéssemos certeza que era de carne e sangue e não esculpida em mármore. Os olhos que refletiam galáxias inteiras e um sorriso que nem mesmo o cupido seria capaz de imitar.

Perfeição, alguns diziam. Eu diria que ele era meu sonho e também o meu pesadelo favorito para o resto da vida.

Eu, com meus insignificantes 1,60 me encolhia em meio aquele tima de homens gigantes, até que o "semi deus", como minhas colegas o chamavam, esbarrou em mim e fez eu derramar todo o suco de uva sobre meu vestido azul claro. Karl era o nome dele, como um homem importante e imponente que parecia ser, esperei pelo xingamento, pois também o molhei de suco. Mas, o que eu esperava não veio. Ele se joelhou na altura do meu joelho pedindo desculpas enquanto procurava algo em uma pequena bolsa de treino. Ele tirou uma toalha e me ofereceu murmurando "desculpa, eu sou um desastre, todo esse tamanho só serve pra esbarrar nas pessoas" e logo que me sequei ele puxou uma camiseta enorme, que me cabia como um vestido. Tudo isso se passou em menos de 10 minutos, mas para mim foram os piores minutos de palavras trocadas sem olhares cruzados de toda a minha vida.

Minhas colegas me escoltaram até um banheiro no posto de conveniências para que eu vestisse aquela camiseta enormemente grande. Ele ficou esperando do lado de fora enquanto eu me lavava e tentava não cheirar a uva. Vesti a camiseta e embolei nas mãos o vestido. Puxei o cabelo para o lado e fiz uma trança meio desajeitada enquanto minhas colegas conversavam sem parar "da minha sorte em receber uma camiseta do Karl e blá blá semi deus".

Sai e só então ele me olhou nos olhos. Se apresentou e, mais uma vez, me pediu desculpas. Eu disse que estava tudo bem e que aquele vestido era velho (quando na verdade eu havia comprado para meu aniversário, no mês anterior). Então eu recebi o primeiro choque de encantamento vindo dele. O sorriso. Ele sorriu para mim e eu não sei como me mantive em pé após aquilo, mas parecia que meus pés estavam pisando em lama ou em areia movediça.

Ficamos andando lado a lado durante o evento e mais ou menos as 22h ele se ofereceu para me levar em casa. Caminhamos silenciosamente durante as quatro quadras percorridas até que eu parei, o olhei e perguntei:

- Por que você não me olhou enquanto me oferecia a toalha ou, depois, a blusa?

Ele ficou vermelho, pude ver mesmo estando completamente escuro na rua.

- Seu, seu vestido estava transparente e eu não queria ser indelicado.

Só então me dei conta de que meu sutiã bege e minha calcinha branca haviam ficado ensopadas com o suco, jurei odiar aquele tecido fino e leve pelo resto da minha vida. Devo ter ficado vermelha porque logo em seguida ele me agarrou pelos ombros e, olhando fixamente nos meus olhos, me disse:

- Em momento algum eu lhe desrespeitaria, mesmo que eu quisesse desesperadamente lhe beijar agora, eu não o faria se isso lhe causasse constrangimento ou repulsa. Ao contrário do que pode parecer - ele disse me calando - eu não compro a companhia de ninguém, principalmente de mulheres, ficam comigo se quiserem e gostarem de mim. Não tenho nada mais que isso que você pode ver. Eu sou somente o Karl, com seus defeitos e limitações.

Que limitações? Eu pensei, aquele homem era perfeito! Mas, logo depois eu descobri que ele tinha uma doença que poderia o matar a qualquer momento. Por isso, mesmo sendo contra os méditos, ele praticava todos os tipos de esportes, estudava filosofia e estava prestes a se formar em Direito. E eu lá, nas minhas aulas de francês e literatura. O que eu seria além de uma professora de primário para crianças que sequer entenderiam o que era o francês.

Naquela noite nos beijamos. Depois do quinto ou sexto encontro proposital nós fizemos amor na grama, embaixo de uma macieira, como nos tempos antigos em que a humanidade era livre. Ele me despiu cuidadosamente e beijou cada parte do meu corpo com devoção e paixão. Meu corpo queimava mais a cada beijo, toque ou olhar. Era quente sem ser vulgar e romântico sem ser piegas.

Só que, Karl era frágil. Quando me pediu em namoro eu pude ver a insegurança nos seus olhos, no seu toque. Ele sabia de algo que eu nem imaginava. Quando completamos um ano juntos e a minha felicidade não tinha fim ou tamanho, descobrimos que eu estava grávida de dois meses. Ele estava se formando naquele verão e já tinha planos de abrir um escritório. Achamos um apartamento pequeno e acolhedor, os amigos nos ajudaram com mobilha de segunda mão e nossos pais com a mobilha do nosso quarto e do bebê. Minha mãe já fazia sapatinhos e mantas sem nem mesmo saber se seria menino ou menina.

Estava com cinco meses quando Karl teve o primeiro desmaio seguido de convulsão. Estávamos na cozinha e eu entrei em pânico, não sabia o que fazer primeiro. Por sorte os vizinhos ajudaram. Fomos para o hospital, depois de uma bateria de exames os médicos constataram que se ele tivesse outro desses poderia ser fatal ou poderia deixá-lo numa cadeira de rodas. Quando John estava com 1 ano e 3 meses, numa tarde comum no supermercado, Karl me entregou-o e começou a se escorar numa prateleira, fazendo todos os produtos caírem. Ele teve o segundo desmaio e a segunda convulsão.

Karl não voltou a falar, não tinha forças nas pernas também. Eu tinha duas crianças em casa. Alguns meses depois descobri estar grávida novamente. Todos me chamaram de louca por querer seguir adiante com a gravidez. O próprio Karl ficou furioso. Eu entendia o que ele queria só com o olhar e alguns sons. Karl sempre fora calado e com olhos expressivos. Nada mudara de fato.

Karl ficou estagnado nesse estado por mais dois anos, tendo poucas melhoras. Ele voltou a andar e aprendeu a língua de sinais, eu também. John andava de um lado para o outro fazendo gestos e a professora da escolinha nos contava que ele pouco falava de fato, mas sim "olhava fixamente, franzia as pequenas sobrancelhas e gesticulava com as mãos de forma ligeira e firme", era exatamente o que o pai fazia.

Meu marido, Karl, se suicidou em 15 de agosto de 1976. Foi o tempo de eu descer e pedir que o zelador me ajudasse com a torneira da pia que estava jorrando água para todos os lados. Ele ingeriu muitos calmantes, logo depois foi para o quarto e disse para John (que já entendia a língua de sinais) que iria dormir. Só me dei conta depois de duas horas, com um bilhete debaixo do travesseio onde ele estava deitado, frio e acinzentado.
Eu te amei intensamente e fui muito feliz. Você não precisa de mais uma criança para se preocupar. Não sou mais o que diziam de mim, sou um mero mortal num corpo que está apodrecendo. Vou olhar por você, pelo John e pela Lili.
Você sim foi uma deusa, como Parvati, cujas lágrimas deram vida ao filho de pano, com suas muitas mãos e com suas milhares de faces. Viva, não chore, siga em frente. Não há arrependimentos, nós fomos o que tivemos que ser, nada mais. Vou dormir e lhe aguardo no Olimpo, minha eterna amada.
Karl
O que posso dizer sobre meu falecido marido? Ele foi um verdadeiro herói para todos a sua volta. Viveu intensamente os bons anos de sua vida sempre ajudando que precisasse. Jamais se negava. Estava sempre ali com seus braços e pernas fortes e sua mente aguçada, e jamais esquecendo do seu coração puro e corajoso. Eu sempre soube que ele não era o tipo de cara que seria fácil lidar. Lembro dele todos os dias, com carinho e saudade enquanto vejo meus filhos cada vez mais parecidos com ele. Lili tem seus cabelos e as bochechas que a entregam. John tem os olhos centrados e a altura. Será um homem grande, e eu, cada vez menor, mais velha e mortal, enquanto Karl será para sempre imortal na nossa memória.


Esse conto faz parte do desafio Imagem + Palavra do Interative-se
A imagem está no início e a palavra é Fragilidade

2 comentários:

  1. Ai que coisa linda! Adoro tuas histórias *-*

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    1. Hahahah awn Lila!!! Obrigada! Eu estou sem tempo pra escrever ou ler algo, isso me deixa bem triste na verdade!

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