Naquela manhã, 2 de abril.


Sinto frio, muito frio. Puxo as cobertas e me enrolo mais. Não resolve muito, porque falta algo. Algo que me envolveria num abraço quente, quase febril. Algo que me tiraria as cobertas e me cobriria com pernas, braços e um tronco grande. Apesar de não estar ali fisicamente seu cheiro está em todo o lugar. Acho que é alguém lá no céu que está me torturando. Abro os olhos, ainda pesados e doloridos de uma noite mal dormida. São 8h30min, ele diria que é muito cedo para fazer qualquer coisa. Era realmente muito cedo para bancar a garota forte, sorrir e seguir de cabeça erguida. Faço uma varredura no quarto escuro para lembrar da situação que o havia deixado na noite passada. O gato comia o resto de pizza que estava em cima da escrivaninha, haviam copos de vinho espalhados por cada canto, banco, mesa ou prateleira. A garrafa estava no chão junto com meu cobertor de casal e umas roupas.

Já fazia uma semana. Uma semana sem aquela voz suave no meu ouvido a cada passo que eu dava pela casa, ou quando estava quase dormindo. Uma semana sem os beijos de bom dia e os sorrisos ao esperar a avaliação sobre o almoço estilo Masterchef. Uma maldita semana sem nenhum dedilhar no violão ou sentindo os dedos ligeiros fazendo voltas em cada cacho do meu cabelo espesso. Sem contar nas suas incríveis habilidades de fazer rir das coisas mais banais. Do fato de ele saber mais línguas das quais eu sonharei em aprender. Tudo isso não deixou nada mais fácil quando ele disse que seria melhor para nós dois, “conhecer pessoas novas é bom, sei que você vai conseguir, logo nem se lembrará de mim” foi o que ele disse. Sabe, ele estava longe de ser perfeito, mas era o meu pedaço imperfeito do paraíso e eu não queria que acabasse assim. Nem assim nem de qualquer outro jeito.

Depois de me perder em devaneios durante 15min decido levantar, tropeço na pilha de roupas. Junto-as e vou em direção ao banheiro. Minha cara está um caos. Nariz vermelho, lábios mordidos, olhos num tom marrom-azulado e inchados. Lavo meu rosto umas duas vezes com água gelada. Não resolve muito, mas decido deixar assim. Tomo um café olhando para a janela, à luz da rua era clara demais, então me encolho um pouco no sofá. O que me lembra de que não fazia muito tempo desde a ultima vez que ele estivera aqui e era torturante. Seu cheiro estava em todos os cantos do meu pequeno apartamento bagunçado. No sofá. No banheiro. Nas roupas de cama e nos meus pijamas. Até nos panos de prato da cozinha. Respiro fundo “acho que um banho vai me fazer melhor”, penso.

É quando esbarro na jarrinha de metal que ele me deu, eu coloquei flores artificiais porque não consigo cuidar de coisas que necessitam de muita atenção. Lembro quando deixei meus cactos morrerem, um secou e o outro acabou apodrecendo no mesmo vasinho, sendo que normalmente eles são fáceis de cuidar. Não sei como ainda estou viva, com tantos desastres. Então paro e lembro:

– Era ele que me fazia permanecer viva. Era ele que cuidava de mim. Digo num sussurro.

Peça por peça minhas roupas caem no chão. A banheira antiga já está cheia. Me sento com cuidado. A banheira se tornou muito espaçosa sem suas pernas grandes e as coxas grossas. “Por quê você me deixou, hein Felipe?”. As lágrimas escorrem sem esforço algum. Então eu mergulho. Vejo tudo turvo. Não há mais lágrimas. Apenas a lembrança de como nós éramos.

O primeiro encontro num café bonitinho no centro da cidade. O segundo encontro no ônibus, quando eu meio sem jeito sentei longe com medo de parecer desesperada para vê-lo novamente. Ele saiu do seu lugar e foi sentar comigo. Nós nos beijamos depois. A nossa primeira vez. Não sei quem estava mais nervoso e bancando o autoconfiante. Quando ele me apresentou para os pais. Quando eu o levei na casa dos meus. E finalmente no dia que decidimos que ele moraria aqui. Foi tão natural: “Eu vou te emprestar umas panelas”, “Posso deixar umas roupas aqui?”, “Alô? Oi Jô, acho que deixei minha escova de dente aí, pode conferir pra mim?” e então vieram os livros, os calçados, e o resto do quarto que era necessário. E um belo dia ele percebe que era jovem demais para “tudo isso”. Que precisava viver. Precisava do espaço dele. Da vida dele. Da solidão.

Eu disse: “ok”, mas no fundo eu queria dizer o quão idiota ele era e como conseguia ser egoísta ao ponto de só pensar no seu próprio umbigo! Acho que era isso que ele queria. Mas, eu, tola, não sou do tipo que faz o que as pessoas esperam de mim.

O ar está indo embora dos meus pulmões. Será que o gato vai saber se virar e achar uma casa quentinha, com comida e amor de sobra? Minhas contas vão acumular embaixo da porta? E quando meu celular não tiver mais bateria e ninguém mais conseguir falar comigo e se der conta de que a minha vida foi embora?

Então ele toca. Aquela música irritante. Eu levanto. Meus pulmões ardem por ficar tanto tempo sem ar. Olho a tela que estava acesa em cima do balcão da pia. Era ele.

– Oi... Felipe.

– Jô, oi, é... quer tomar um café? Um grande segundo se passa. – Alô?

– Oi. É... hmm. Não sei. Eu... Eu não esperava por isso, então, não sei.

– Tá, eu posso esperar, mas, não demora muito. Não quero que o café esfrie e as flores murchem. Havia um sorriso na sua voz.

– O quê?

– Só abre a porta Jô! Oxe! Cê tirou a chave reserva que estava embaixo do tapete da entrada. Eu pisco várias vezes até entender o que estava acontecendo, mas meu cérebro se recusa a cooperar depois de tanto tempo sem oxigênio.

– É que eu tô no banho. Me dá uns minutos. Me apresso pra pegar uma toalha e sair da banheira.

– Tá. É a resposta que eu ouço de longe. Corro ainda molhada, com o cabelo pingando, de pés descalços e enrolada na toalha. Abro a porta e lá está ele. Naquela camiseta preta que ele adora e que eu também. Com o cabelo desgrenhado pela ansiedade e os dedos nervosos. Ele tem flores de verdade nas mãos e uma térmica de café.

– Vim saber se você estava bem. Ele olha ao redor. Acho que a casa sente a minha falta, tem uma calcinha na mesa Jô!

Eu ri. Ele entrou, ainda meio tímido. Eu sabia o que o silêncio mascarado não queria dizer. Ele também sentiu saudade. 

Este post faz parte do Desafio Imagem & Palavra do Interative-se! Eu recebi a imagem 7, que está no início do post e me serviu de inspiração. Queria agradecer ao meu namorado também que foi usado de modelo e porque ele vai pra praia ficar 20 dias longe (isso me deixou meio jururu e eu resolvi escrever um pouco sobre).
 Interative-se!

14 comentários:

  1. Ahhhhhh, fazia tempo que eu não lia uma coisinha assim que me deixa com o coração mole hauhua por que cê foi fazer isso comigo?
    Eu também quero receber uma térmica de caféééé hahuah

    Ahh, já, já ele volta ): bom que depois vai dar pra mataaar a saudade!

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    1. Awn, não queria fazer isso contigo, eu juro!!! Hahhaha quem não quer né? Espero que ele volte antes até! Vou sentir falta do meu gordinho!

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  2. Aaaaah teu cabelo, esse corte adoro, é lindo. MEnina eu tava esperando um final diferente sabe, com aqueles finais meios dramáticos de superação, me surpreendeu que ele voltou. Fiquei tbm com o coração mole e feliz que ele voltou. Fica assim não, daqui a pouco seu namorado volto.

    Se você quiser ler textos meus, pode clicar na aba Comportamento do Eu crio moda, ou ir para o Ser irreverente ^^

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    1. hahahah pois é, eu acho que peguei todo mundo de surpresa, minha amiga leu e disse que adorou o final, sucinto e fascinante!

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  3. bela história!
    mami - http://mami.blogs.sapo.pt/

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  4. Uaauuu!! Que história pura e fascinante. Adorei o final! ;)

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  5. Ai que gracinha um amor que história mais linda , vou confessar que achei que ele não ia voltar como todas as histórias mais voltou rsrs meu coração tava a mil kkkk vai surpreender todo mundo rsrs . Adorei

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    1. HAhahaha né, chaga de finais ruins, com morte e choro! Temos que acreditar no amor, que ele é possível!

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  6. Gente eu senti cada detalhe desse texto. E como já ouvi essas frases, "sou mto nova pra isso, n estou preparada, conhecer pessoas novas é bom, sei que você vai conseguir, logo nem se lembrará de mim." Só Deus sabe RS. Mto bom msm, adorei. Parabens

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    1. HAhaha obrigada. Bem, foi baseado em fatos reais.

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  7. Senti cada pormenor do seu texto! Muito engraçado!

    P.s. não consigo seguir o seu trabalho, algum problema?

    Beijinhos e felicidades :) :*

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