Carta para meu querido desconhecido


Shakespeare disse: 
Estas alegrias violentas, têm fins violentos
Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora
Que num beijo se consomem.
Hoje está uma bela noite, as estrelas decoram o céu em seu misto de negro e azul marinho. Eu estou deitada na cama, olhando para o teto e recordando das coisas da vida. Dos beijos, dos abraços, dos encontros mal planejados, dos sorrisos, das felicidades tão meramente momentâneas que em poucos dias nem um suspiro de recordação restava. Como fomos fúteis, meu querido desconhecido. Estivemos um nos braços do outro durante inúmeras noites, os beijos e os sorrisos de despedida parecem-me tão superficiais agora. Te abanar da janela do meu apartamento do terceiro andar vestida apenas com a minha camisola de cetim, sem medo do que os outros iriam pensar. 

Eu serei perdoada se argumentar dizendo que era infantil? Que para mim a vida era tão fugaz que deveria ser vivida intensamente? Acho que isso não é uma boa desculpa para dar a alguém como você que entregou sua alma e abriu seu coração para uma pessoa como eu. E o que eu fiz? Machuquei-o. Feri quem provavelmente poderia vir a se tornar o amor da minha vida. 

A culpa foi daquele maldito verão de 1940 quando aceitei viajar para o litoral com minhas amigas. Elas disseram: "Divirta-se, você logo estará casada com aquele Advogadozinho metido!", mas eu estava bêbada demais para contestar, e você, você estava tão atraente com aquela camisa azul da cor do mar. A música era tão sedutora quanto seus lábios finos. Eu nunca gostei de caras como você, sempre tão esnobes, pareciam que não ligar para mulheres como eu, e provavelmente fosse isso, eu era esnobada por ter herdado a fortuna da minha família e os cabelos de Cigana da minha mãe. Pobre mulher. 

Aquelas férias foram inesquecíveis! Admito, mesmo se quisesse não haveria como esquecer tudo o que passamos. Você me fez pular nas águas geladas daquela cachoeira, eu tremia feito um passarinho recém saído da casca! Mas você ria de todas as coisas que eu fazia mesmo não sendo nem um pouco engraçado. Acho que o senso de humor estava somente em você, e as coisas eram cômicas porque eram com e pra você. Então o verão acabou. E cada um deveria voltar para sua vida cotidiana. Voltaríamos a ser meros estranhos um para o outro. Na verdade, sempre fomos estranhos, nosso relacionamento tão íntimo, tão verdadeiro foi também tão superficial. Problemas e deveres não existiam, nada além de festas, bebida, sexo e diversão era citado no nosso dia a dia. 

Erramos mais ainda quando tivemos a magnífica ideia de nos encontrar na surdina. Entrar e sair no meio tempo que meu noivo não estivesse lá me visitando, visitas feitas para saber o que eu estava fazendo. Mas, afinal, qual o problema não é? Ele nunca aparecia antes das onze e meia da manhã e jamais passava das dez da noite fora da sua cama. O trabalho o requisitava cedo, todos os dias. Ele era o homem que beijava a minha mão e almoçava comigo. Você beijava as minhas coxas, seios e ombros, éramos a refeição um do outro. 

Até aquele dia fatídico. Por que um homem de negócios largaria o trabalho no meio da manhã para ir a casa da sua noiva contar que virou sócio do Escritório de Advocacia mais ilustre da cidade? Por quais motivos ele decidiu acordar sua noiva e a surpreender enquanto ainda estivesse com os tecidos finos e semitransparentes da sua roupa de dormir? Porque, na verdade, ele ficara sabendo que sua noiva estava tendo encontros com um homem qualquer que trabalhava para uma loja que vendia e arrumava livros estragados.

Ele abriu a porta aparentemente como sempre, mas carregava uma pistola na cintura. Eu não lembro quais foram as palavras que ele gritou ao ver você me abraçando. Nós estávamos tão envoltos em nossos próprios seres, em nosso próprio mundo, que o resto era o resto. Mas o estampido que a bala fez ao sair do cano da pistola chama qualquer um para vida, e para a morte. Você sangrou litros, pensei que havia morrido e a mão dele era pesada ao agarrar meu braço e me arrancar dali. Quando voltei ao apartamento o tapete havia sido removido e as roupas de cama também, mas o colchão ainda tinha marcas suas. Nunca mais tive noticiais suas durante todos esses anos, nos mudamos, meu noivo e atual marido na época abriu uma filial do escritório em outra cidade e nos fomos para lá com nossos dois filhos. Desde lá se passaram trinta anos, fui ao antigo escritório para agilizar os papéis relacionados as posses do falecido, ele teve uma parada cardíaca no meio da noite, quando acordei já era tarde. Estava voltando de lá, por uma ruazinha, quando vi na vitrine de uma livraria uma foto sua dizendo que estaria lançando seu terceiro livro. Você está vivo, mas eu não tenho o direito de reivindicar algo. Eu o feri e convivi trinta anos com isso, com o olhar atento do meu marido em relação as minhas idas e vindas cotidianas. Éramos um casal feliz, eu sabia disfarçar. 

Espero que esteja bem e que não sinta mais as dores que aquele dia lhe causou. Espero que o dono da livraria consiga lhe entregar a carta, quem sabe você ainda se lembra das vezes que dançamos bêbados na areia da praia. 
Seja, acima de tudo, feliz em meu lugar, seja feliz por mim, por nós. Viva, pois eu morri. 

Ass: Sua amada.

2 comentários:

  1. Nossa, fiquei sem fôlego depois dessa leitura! Adoro textos escritos em forma de cartas e essa foi incrível! Você contou uma história que poderia parecer clichê de um modo tão especial e tão bem escrito que não deixou espaço para falhas e qualquer fraqueza de conteúdo.
    Já curti a página para poder acompanhar as postagens! <3
    xoxo

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    1. Ain linda! Estou feliz! Mesmo. Só recebi críticas sobre esse texto, acharam clichê e ruim (pelo menos as pessoas que eu mostrei né). Mas, de qualquer forma, muito muito obrigada! <3

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