Cartas perdidas de Isabelle


Isabelle escrevia em seu diário todas às noites, mas algo mudou em sua vida, num daqueles dias ensolarados demais e que a roupa gruda no corpo e tu só quer um banho. Ela encontrou o amor da sua vida, que duraria um pouco mais de um ano, e durante aquele ano ela se absteve de escrever em seu velho e fiel amigo diário e passou a anotar coisas aleatórias sobre ele. Por quê? Porque ela o amava em qualquer lugar e a qualquer distância.

Porém, as coisas começaram a dar errado. Ele pouco falava com ela, pouco a ouvia, pouco fazia questão de vê-la, e aquele amor genuíno foi se tornando ódio, ela o odiava com todas as forças possíveis e impossíveis de seu corpo franzino de 1,55 de altura. Ela o odiava até a raiz dos cabelos ruivos, em todas as sardas do seu rosto, em cada pequeno traço de seus olhos verde acinzentados. Ela odiava o fato de não conseguir odiá-lo por muito mais de uma semana, pois na outra ele lhe enviava uma mensagem sedutora e ela transbordava pelas bordas de suas curvas tão sutilmente desenhadas pela mão de algum artista perverso.

Isabelle é uma mulher doce, é um vulcão, ela está em constante ebulição, mas como lidar com isso? Se nem mesmo seus amigos e parentes a entendem? Se refugiar nos braços de alguém e ser submissa? Jamais! Ser “rotulada” como fácil? Será que foi isso que lhe sobrou? Ela pensava dias e noites, incansavelmente. E foi em um dia igual aquele que ela o encontrou que resolveu lhe enviar cartas, estas que seriam entregues via telepatia ou tele-transporte, pois nunca seriam lidas pelo homem do sorriso sedutor que roubou seu coração de menina e o corrompeu com beijos desejosos.

Ela disse para si mesma, agora chega, depois disso serei uma nova mulher, não! Serei eu mesma novamente, reformulada após esse longo tempo de afastamento do meu ser. Ela me escreveu contando tudo isso esses dias, e me permitiu ler as cartas, que diziam basicamente assim:

11. 05. 2014
Eu nunca pensei que iria me apaixonar por você no momento que dei “match” naquela rede social, pensei: “Ah, legal, ele deve ser alguém agradável de se conversar.” Mas, era muito mais. Suas palavras eram doces sem serem chatas, era divertido de um jeito culto, você era uma ilusão tão convidativa que seria tolice resistir, foi o que pensei na época, afinal, o que poderia dar errado? Tudo, absolutamente tudo poderia dar errado.
Depois de todos os meses, quando eu achei que estava segura e pronta para seguir em frente, você me chama e diz que me deseja, e novamente, seus lábios e olhares se tornaram tão convidativos. Tenho que ser forte. Sou forte, sempre fui e sempre serei. Não me trate como se fosse uma boneca, você sabe que não sou e que nunca fui. Foi bom enquanto durou, embora aquela angústia sempre esteve presente em meu peito,meus olhos eram loucamente apaixonados pelas sardas que desenhavam constelações em seu corpo.
Ah, seu corpo, tão sedutor (para mim), não tenho palavras para descrever, embora seu coração fosse um túmulo vazio. Não quero ver meu nome na lápide, então, meu bem, adeus.

27. 06. 2014
Meu caro ex-amor. Você foi ridiculamente desnecessário ao dizer “mas a minha garota gosta assim”. Você sabe que sou e sempre fui perdidamente apaixonada por ti, e mesmo assim, depois de tanto tempo que não nos víamos você falou aquela (com o perdão da palavra) merda.
 Você não sabe o poder que exerce sobre mim. Meu corpo todo congela, foi assim desde o primeiro encontro. Não sei como lidar com isso, não sei o que fazer para me curar dessa doença que é te amar. Veja só, até rimou, que coincidência maldita.
Eu poderia ter sido qualquer um de seus adjetivos pejorativos – dos quais todos os homens acham o máximo e um elogio, mas nós mulheres só gostamos de ouvir na cama, às vezes – e saiba que se você precisasse de um rim eu seria a primeira a entrar na fila de doação. Eu busquei te entender, mesmo que você não fizesse o mesmo.
Eu, com meu amor de menina quis mudar e curar seu coração. Então não faça pouco dos meus sentimentos e também não espere que eu pare para trocarmos palavras vazias no meio da rua. Não sou mais assim, não sou mais aquela menina que você conheceu e tomou nos braços sob a luz bruxuleante do quarto.
Não o farei mais. Não me verá mais. Muito menos saberá de mim. Serei livre como o vento e quem me ver saberá que vivi a vida no limite.


E foi assim que Isabelle nos deixou após uma dose de whisky naquela noite chuvosa, com um vestido negro e a boca vermelha. Uma mala debaixo do braço e a gola do casaco levantada. Ela foi ser livre como a brisa que umedecia os fios soltos de seu cabelo cor de tangerina madura. Afinal, aquela mulher é uma tempestade de verão. Ou será que é realmente um vulcão?

2 comentários:

  1. Nossa, tá parecendo um texto meu (quando escrevo às X horas da madrugada é certinho que o texto vai começar bonito e ter um final... chocante ahaha).

    Fiz um parecido uma vez, sobre um homem num café bebendo whisky contando suas mágoas...
    Mas não vou mentir, as histórias românticas vistas na perspectiva de uma mulher são sempre mais... "vulcânicas" e "tempestuosas" ahaha!

    Enfim, vou terminar o comentário elogiando a sua escrita. A-do-ro ;)

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    1. AHhahha obrigada mon cher :)
      E sim, sempre são vulcânicas, até porque eu sou assim, então nada foge muito do padrão!

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