Nina - A Menina Que Morreu Engasgada


Nina sentia-se só e incompreendida, ao seu ver parecia que as pessoas a sua volta não a enxergavam claramente. Talvez a vissem como um borrão de tinta ou meio transparente, como uma cortina de banheiro que pode-se comprar numa dessas lojas de um e noventa e nove.

Ela nunca sentiu-se completamente compreendida dentro de sua casa e em meio aos parentes, amigos e irmãos. Era como se a vissem como um bibelô, bonito e delicado, que embora todos tivessem elogios a dizer, ninguém realmente prestava atenção. Ele ficava ali, sentada no sofá, espremida entre a tia gorda e tagarela e o primo nerd e tarado que só sabia olhar-lhe os seios de modo que uma ligeira umidade cobria-lhe os lábios e em raras vezes um fio de saliva corria-lhe pela lateral da boca.

Um peixe fora d’água era pouco para expressar a ânsia que Nina sentia com toda aquela bajulação e falsa cordialidade. A sala estava barulhenta com todos falando ao mesmo tempo, cada um com seu próprio assunto destinado a pequenos grupos. Vez ou outra ela tentava opinar em algum assunto do seu interesse, sabia que sobre aquilo tinha muito a contar, mas no final, eles ouviam e voltavam a falar assim que ela terminava de formular meia dúzia de palavras, sem nem ao menos terminar seu argumento falho.

Seu olhar se tornava vago, distante e perdido. Vez ou outra uma tia velha e encalhada lhe perguntava sobre os estudos, trabalho e quando iria arrumar um “namoradinho”, isso a deixava bem menos animada do que antes, com todo aquele murmurinho.

Ela se levanta e sai, escolhe debruçar-se no peitoral da janela e ficar observando a agitação dos carros na rua, e de longe pode ouvir os cochichos relacionados a ela “Como a Nina anda esnobe, não fica perto dos parentes” ou o pior “É o mal da adolescência, ela é anti-social, tadinha, precisa de um psicólogo”. Aquelas pequenas coisas quebravam, literalmente, o coração da pobre garota. Ela se sentia vazia e invisível, e foi assim, que pouco a pouco ela foi sumindo. Menos pessoas perguntavam sobre ela e mais ninguém perguntava sobre os namoradinhos, nem o primo que tanto adorava seus seios, lembrou-se dela.

Nina morreu em seu quarto, há alguns meses, sem comer ou beber, encontraram-na deitada em sua cama, com um grosso caderno junto ao corto, fortemente preso entre os braços. Todas suas opiniões e palavras não ditas estavam ali, seus sentimentos fartos e exaustos estavam guardados e empilhados folha após folha, a irmã mais velha um pouco menos abalada pegou o velho diário cheio de páginas rabiscadas e leu, página após página e ao final constatou, não foi o coração que parou, ou os rins, Nina morreu engasgada, engasgou-se com as palavras não ditas ao longo dos anos.

Alguns dizem que após o incidente de Nina, a família mudou-se e que hoje na antiga casa pode-se ouvir pessoas falando, quase sempre uma voz feminina argumenta longas histórias e nunca se cala. Outras vezes ouve-se um choro abafado ou gargalhadas mais parecidas com as de uma grande reunião familiar. Acredito que Nina achou com quem conversar, afinal, nós nunca estamos completamente sós.

4 comentários:

  1. Oi Maryel!

    Quanto tempo não venho aqui, peço desculpa por isso. Bem, o que dizer de seu conto? Nina realmente viveu uma vida de solidão com palavras e pensamentos engasgados, triste sua vida, agora esse final do conto, realmente me deixou sem palavras, será ela uma assombração na velha casa? Gosto de finais assim sabe, rs.

    Enfim, ótimo conto!

    Beijos.

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    1. Ah Sammy, obrigada! E verdade, faz tempo!
      Então, sim, ela é a assombração! Levei um susto quando me dei conta de que tinha escrito esse final, meio macabro né? Mas o final fica no ar mesmo, essa é a ideia, gosto de livros/filmes que deixam essa brecha pra pensar.

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  2. muito bom, gostei você esta de parabens!!!

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