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Um conto da pobreza


Ella era de uma família muito pobre, gente da terra, que ganhava o pão com o suor do seu trabalho. Ella sempre achou honrada a forma com que seu pai pensava, e ele sempre repetia: Nunca te esqueça de onde veio, quem tu és, e filha de quem tu és. A garota jamais se esqueceria disso, estava enraizado nela, e embora Ella adorasse ler e passar horas sonhando com o dia em que se tornaria professora, das crianças que aprenderiam com ela e todas as belas histórias que poderia contar, seu velho pai insistia em cortar-lhe os sonhos.

Certa vez, Ella fez a prova mais difícil da vida dela, essa prova julgaria se estava apta para se tornar responsável por uma classe. Todos a recriminavam: “Você não poderá ter uma família, e logo ficará velha para casar”, “Seu pai espera netos, alguém para continuar a linhagem dele”, “Toda professora é malvada e mal amada” entre outras coisas que ela recusava-se a pensar.

No dia do resultado, Ella estava ansiosa, pôs a melhor roupa e prendeu os cabelos. Tremia feito vara verde, respirou fundo várias vezes até controlar os tremores nas mãos. Subiu na carroça e tocou-se para a cidade, na porta da universidade estava à lista com os nomes dos aprovados, ela ficara na vigésima terceira colocação, de trinca vagas. A moça não continha-se de tanta alegria! Correu até a feira e comprou ótimos legumes, faria a ceia da noite em comemoração. Chegando em casa, arregaçou as mangas, vestiu um avental velho e surrado, e pôs-se a cozinhar, varreu o chão e acendeu as lamparinas para que quando os mais irmãos e o pai voltassem da roça, a casa estivesse um brinco. Tudo isso ensinada pela mãe, que deus a tenha, copeira de uma família rica da cidade.

Os três irmãos mais novos e o pai chegaram, cada um contribuiu para sujar o chão da cozinha com o barro dos pés, ela pediu: “Limpem os pés, varri a casa toda!” e o que recebeu em troca? Um xingamento do pai, “A casa é minha, e eu faço o que bem entender! Mulher foi feita pra cuidar da casa, se está suja, limpa de novo”. Com lágrimas nos olhos, falou baixinho, “Sim pai, desculpe. É que eu tenho uma boa notícia, passei na prova, poderei ser professora”.

O pai parou bem onde estava, olhou para os filhos e depois para Ella, passou as mãos no rosto e bufando, disse: “Já está se achando melhor que os outros, não é mesmo! Daqui a pouco vai querer mandar no modo que nós nos vestimos, vai querer andar com roupas chiques e nos corrigir quando falarmos errado. Porque tu não te casa, tem filhos e cuida de uma casa como toda boa mulher faz?”
Aquilo a destruiu por dentro, e o pai continuou: “Nunca se esqueça de onde veio, de quem és e de quem tu és filha! Eu sou um pobre lavrador, teus irmãos não são muito diferentes de mim, agora, porque tu teve educação, por causa da tola e sonhadora da tua mãe, não menospreze a nós!"

“Mas, pai, não foi isso que eu quis dizer!” Soluçou a pobre garota. “Eu só queria comemorar, fazer algo diferente para comermos, e ainda mais agora, serei enviada para outra cidade para leciona!” O pai ainda mais furioso berrou, “Viste? Ela vai se mudar! Vai abandonar a família, essa daí tem jeito de rica, sempre teve, desde pequena adorava as coisas caras, os mimos que o dinheiro dá”.

As lágrimas brotaram pelo seu rosto, meio rouca, pode pronunciar suas ultimas palavras naquele lugar, “Eu lhe amo, mas basta! Se o senhor escolheu essa vida, se orgulhe dela, mas não tire o meu direito de sonhar, de viver e de crescer! Eu sou livre, e sempre serei! Nunca serei como a minha mãe, que se casou com o senhor e morreu sem ganhar uma flor sequer!” Ella arrancou o avental, passou pelo pai e pelos irmãos atônicos, pegou a trouxa de roupas e pertences, o dinheiro que economizara durante anos e foi-se embora.

Naquele dia choveu muito, penso que foram as lagrimas da mãe da garota ao vê-la sofrer. Aquele homem amargurado nem sempre fora assim, mas alguém lhe mostrou que os sonhos não o levariam a lugar algum, então num certo dia, ele parou de sonhar. Ouve-se que Ella nunca se casou, que cuida de uma escola e, apesar da rigidez com que lida com as crianças, é sempre doce e sonhara. Ela nunca esquecera de onde veio, nunca deixou de ser a menina dos cabelos soltos que vivia no campo, mas agora, os tempos são outros, ela usa preto e prende os cabelos, Ella ainda sonha a noite, e todos os dias, reza para que jamais deixe de sonhar!


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Nina - A Menina Que Morreu Engasgada


Nina sentia-se só e incompreendida, ao seu ver parecia que as pessoas a sua volta não a enxergavam claramente. Talvez a vissem como um borrão de tinta ou meio transparente, como uma cortina de banheiro que pode-se comprar numa dessas lojas de um e noventa e nove.

Ela nunca sentiu-se completamente compreendida dentro de sua casa e em meio aos parentes, amigos e irmãos. Era como se a vissem como um bibelô, bonito e delicado, que embora todos tivessem elogios a dizer, ninguém realmente prestava atenção. Ele ficava ali, sentada no sofá, espremida entre a tia gorda e tagarela e o primo nerd e tarado que só sabia olhar-lhe os seios de modo que uma ligeira umidade cobria-lhe os lábios e em raras vezes um fio de saliva corria-lhe pela lateral da boca.

Um peixe fora d’água era pouco para expressar a ânsia que Nina sentia com toda aquela bajulação e falsa cordialidade. A sala estava barulhenta com todos falando ao mesmo tempo, cada um com seu próprio assunto destinado a pequenos grupos. Vez ou outra ela tentava opinar em algum assunto do seu interesse, sabia que sobre aquilo tinha muito a contar, mas no final, eles ouviam e voltavam a falar assim que ela terminava de formular meia dúzia de palavras, sem nem ao menos terminar seu argumento falho.

Seu olhar se tornava vago, distante e perdido. Vez ou outra uma tia velha e encalhada lhe perguntava sobre os estudos, trabalho e quando iria arrumar um “namoradinho”, isso a deixava bem menos animada do que antes, com todo aquele murmurinho.

Ela se levanta e sai, escolhe debruçar-se no peitoral da janela e ficar observando a agitação dos carros na rua, e de longe pode ouvir os cochichos relacionados a ela “Como a Nina anda esnobe, não fica perto dos parentes” ou o pior “É o mal da adolescência, ela é anti-social, tadinha, precisa de um psicólogo”. Aquelas pequenas coisas quebravam, literalmente, o coração da pobre garota. Ela se sentia vazia e invisível, e foi assim, que pouco a pouco ela foi sumindo. Menos pessoas perguntavam sobre ela e mais ninguém perguntava sobre os namoradinhos, nem o primo que tanto adorava seus seios, lembrou-se dela.

Nina morreu em seu quarto, há alguns meses, sem comer ou beber, encontraram-na deitada em sua cama, com um grosso caderno junto ao corto, fortemente preso entre os braços. Todas suas opiniões e palavras não ditas estavam ali, seus sentimentos fartos e exaustos estavam guardados e empilhados folha após folha, a irmã mais velha um pouco menos abalada pegou o velho diário cheio de páginas rabiscadas e leu, página após página e ao final constatou, não foi o coração que parou, ou os rins, Nina morreu engasgada, engasgou-se com as palavras não ditas ao longo dos anos.

Alguns dizem que após o incidente de Nina, a família mudou-se e que hoje na antiga casa pode-se ouvir pessoas falando, quase sempre uma voz feminina argumenta longas histórias e nunca se cala. Outras vezes ouve-se um choro abafado ou gargalhadas mais parecidas com as de uma grande reunião familiar. Acredito que Nina achou com quem conversar, afinal, nós nunca estamos completamente sós.
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Carta ao meu grande amor


Inspirado no filme “Se eu ficar”

   Meu amor, é a ti que dedico estas palavras, e sabendo que palavras não são o bastante para expressar tudo o que vivi e viverei, tudo e todos que amei, os obrigados e desculpas não ditos. Eu quero que mesmo que eu seja fraca e erre, mesmo que grite e chore, quero que fique comigo, como for, como der. Ah, amor, eu sofro tanto só em pensar em perdê-lo, não se vá e não me deixe ir, jamais.

    Se eu pedir “fique comigo”, tu ficarias? Eu sei dos meus defeitos, mas até um super herói tem uma fraqueza. Eu sou egoísta, sei que todos vêem isso, sei principalmente que tu vê, e tu me vê tão bem, sabe ler entre as minhas páginas amassadas e borradas, aquelas tristes e vazias que não permito que ninguém veja.

   Não se sinta só, pois nós sabemos o que é isso, eu estarei aqui, sempre, mesmo longe, mesmo quando nossos corpos forem poeira no espaço, seremos poeira de estrelas, e estrelas brilham, nós brilhamos, nosso amor brilha. Então apenas fique, e seremos fortes. 

   Tivemos e teremos bons motivos para ir, mas serão ou foram maiores dos motivos para ficar? O que será de mim se tu for para o horizonte distante? Quem será o espelho das minhas melhores faces e também dos meus olhares mais sombrios? Quem olhará pra mim dizendo “Tu está errada”, com um olhar de “Mesmo assim EU te amo”? Quem?

   Me abrace uma vez mais, como quando éramos mais jovens e os problemas suportados com uma canção lenta, uma valsa entre o sofá e a pia da cozinha. Quem me manterá nos braços até eu dormir e quem me acordará aos beijos ao domingo? Me pergunto, quem poderá um dia ensaiar te substituir, jamais, jamais o farão. 

   No tarô tem uma carta, A Estrela, ela lhe guarda segredos e presentes brilhantes, feche os olhos e basta desejar, que estarei em teus pensamentos, jamais esqueça quem te ama, quem tira o melhor de ti e quem mostra o quão ruim tu está sendo. São esses olhos castanhos, meio sem definição, e esse coração tão cheio de duvidas que te amará eternamente. 

   Sei que essa carta é só mais um monte de bobagens, mas eu vim e fiquei por um motivo, então, fique comigo só mais um pouco. 
Att. Seu Amor

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Era uma vez, uma menina... © Copyright 2011 - 2016. - Versão 9. Little nymph. Ilustração Martina Naldi. - Original de Muryel de Oliveira. Tecnologia do Blogger.