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'relaxa, ta tudo certo'


Eu chorei quando você deixou nossa casa. Quando fechou a porta na minha cara. Mas, afinal, eu sempre choro, não é o que você diz? Perdoe os erros de português, você sabe que eu sempre fui boa em ficar em silêncio e deixar os olhos falar por si só. E a língua? Bem, essa eu uso para beijar e assoviar. Apesar de não o fazer tão bem (o assovio, não o beijo).

Foi como um soco na boca do estômago. Cortou meus lábios e quebrou meu nariz. Por que um coração partido dói tanto?

Você diz que tudo que eu escrevo é sobre mim ou sobre meus relacionamentos, mas tudo o que sai da sua boca são palavras milimetricamente calculadas para confundir e ferir. Desculpe, meu bem, com essas palavras cruéis é que espera que eu abra meu coração e espere passivamente que você penetre nele e tire tudo de bom que há em mim? Sinto muito, você sabe que eu nunca fui passiva, tampouco passional. Prefiro me manter sob controle, mas as vezes é necessário se descontrolar para espanar o pó que se acumulou sobre os ombros, não é mesmo?

Ontem em meio a briga eu me senti como uma criança acuada, com medo e culpa. Senti que era culpada, mesmo não sabendo porquê. Esperava de peito aberto por uma palavra doce, por cumplicidade, mas tudo o que recebi foram queixas desenfreadas baseadas nas diferenças da nossa personalidade e forma de ver o mundo. Foram quatro anos tentando, quatro anos jogados fora. Por isso eu digo alto e em bom som, pra mim chega!

Estou farta de ser cortada em pedacinhos e espalhada pela casa. Estou farta de esperar afeto ou uma atitude complacente. Mas, tudo que eu recebi foram queixas vindas da sua falta de entrosamento, confiança, ou seja, lá como chamam quando nos abrimos para alguém que nos é querido. Não vou lhe forçar a dizer nada se você não chegar e me disser. Não vou ficar perguntando sobre a sua vida em tópicos chatos que mais parecem um interrogatório, eu irei esperar você me contar de bom grado, caso contrário nada mudará, continuaremos sendo o que somos um para o outro.

Também não me diga que eu sumi, que não lhe chamo mais para sair, pois todas as vezes que eu chamei sempre houve algo ou alguém mais importante. E eu entendo que todos temos prioridades na vida, eu também tenho as minhas, no caso: eu. Por que? Porque eu cansei de ir dormir chorando me sentindo um lixo e de acordar com a cabeça explodindo e os olhos sensíveis, com o estômago embrulhado e uma vontade gigante de ficar o dia todo em posição fetal na cama contemplando a minha existência imunda e sem valor.

Só que, eu tenho valor. E nem você nem ninguém tem o direito de me fazer sentir como se eu não tivesse.


E, ah querido, eu troquei as chaves da porta, as senhas da nossa conta e todos os acessos que você tinha na minha vida. A minha casa, meu coração e tudo o que supostamente nos ligava. Isso não lhe pertence mais. Mas, ‘relaxa, ta tudo certo’, beijos e dorme bem!

[das coisas que eu escrevo ouvindo indie]

ps: saudade de vocês!
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Eu sou aquela que tem a força tatuada no peito!


Eu sei que isso não é nenhuma reunião de reabilitação que eu deveria me apresentar e dizer há quantos dias eu estou "limpa", mas acho importante que saibam, que um dia eu estive suja. Estive na lama. E que essa força toda que hoje habita em mim, nem sempre esteve aqui.

Eu era uma garota normal, de uma cidade normal, numa escola normal. Não era popular, tampouco bonita como as populares. Era a garota que ia para a biblioteca ler e sonhar com o meu grande amor ou com uma grande carreira. Tudo estava bem até um grupo de alunos novos entrarem na escola. Eram três irmãos e uma irmã. Eram lindos, populares e atletas. Além de serem novos e a curiosidade de todos. O mais velho andava com seu skate embaixo do braço para lá e para cá. A irmã, um pouco mais nova era do tipo que esnobava as populares, o que a fazia mais popular ainda. O do meio era quieto, fechado poderia muito bem andar em qualquer grupo, rir de suas piadas e saber de todas as fofocas sem ser descoberto. O mais novo ainda estava no fundamental, portanto, era um garotinho bonito e engraçado. 

Estavam consecutivamente no terceiro, segundo e primeiro ano do ensino médio. O menor estava entre o quarto e quinto ano do fundamental. Nessa época eu era do oitavo ano, que é quando você não se encaixa no fundamental e nem no médio. É uma fase difícil por sí só. Mas, quando acontece com você o que aconteceu comigo. Tudo fica absolutamente insuportável.

Foi no dia 11 de maio, eu estava na biblioteca da escola escolhendo livros para ler no final de semana, quando sem querer esbarrei em alguém. Sem ver bem, comecei pedindo desculpas. Quando levantei a cabeça pude ver que era, o garoto novo, o do primeiro ano, aquele que eu não sabia o nome. Ele me encarava sério. Estava com medo de receber um xingão, quando ele abriu um sorriso tímido e me entregou os livros. 

"Meu nome é Matheus, prazer." e eu fiquei piscando e pensando no que eu deveria dizer, então consegui pronunciar "Sabrina". Não sei ao certo se ficamos meia hora ou meio minuto nos olhando. Ele tinha lindos olhos castanhos, meio avermelhados como argila e eu não conseguia parar de olhá-lo. Não lembro bem o que houve depois, só que saímos dali e ficamos conversando sobre literatura e de como eu detestava os clássicos brasileiros. 

Semana após semana nos encontrávamos na biblioteca ou no intervalo, todos percebiam que estávamos gostando um do outro, menos eu. Eu não entendia muito bem de romances, só os lia. Matheus era sempre gentil e atencioso, sorridente, mas contido. Discreto, eu diria. Quando me dei conta do que poderia estar acontecendo entre a gente eu pirei. E ele percebeu a mudança. Fiquei mais insegura com seus toques na minha mão ou no braço. Não conseguia encará-lo. Como saber se ele sentia o mesmo que eu? Eu estava apaixonada! 

No dia dos namorados, todas as meninas que tinham um estavam carregando seus presentes. Alguns mais exagerados que os outros. As populares carregavam uma sacola com pequenos presentes que haviam ganhado. Esbarrei, por casualidade numa criança que dava doces para meninas. Ela me deu um, fiquei tão contente com aquilo. Eu só não esperava pelo que estava por vir. 

Entrei na biblioteca e fui para a minha prateleira favorita, a dos romances estrangeiros. Estava escolhendo se era melhor reler Sense and Sensibility ou O Morro dos Ventos Uivantes. Foi nesse instante em que eu estava imersa nos meus devaneios, que ele cobriu meus olhos e perguntou baixinho se eu sabia quem era. "Matheus?" sussurrei trêmula. Então ele tirou as mãos dos meus olhos e eu me virei. Ele segurava um box dos livros da Austen, não sabia se o ar tinha ido embora por causa do box, dele estar me dando o presente ou só pelo fato de ele estar ali. 

"O que é isso?" perguntei, tola e insegura. "Seu presente" ele disse sério, tentando não rir. "Mas, eu não estou de aniversário!", ele soltou um suspiro desapontado. "Seu presente de dia dos namorados. Eu sei que não somos, mas eu poderia arriscar só se tivesse um bom motivo no caso de você não aceitar o presente por não sermos namorados." Eu não conseguia mais respirar nesse momento. "Então Sabrina, quer ser minha namorada?" a casa caiu, pensei, o que vou dizer para ele? "Eu... eu... eu... sim!". Acho que nunca vi alguém tão feliz quanto Matheus nesse momento. Ele me pegou pela cintura e me abraçou tão apertado que meus pés ficaram no ar quando ele me levantou. Nós nos olhamos muito de perto, suas mãos na minha cintura me erguendo, as minhas em seu pescoço macio. Nós nos beijamos lenta e desajeitadamente, mas foi o melhor (e primeiro) beijo da minha vida

Você que está ouvindo a minha história, até aqui não consegue imaginar o que pode ter acontecido nesse relacionamento de contos de fada, que toda a garota quer, não é mesmo? Bem, estamos chegando lá. 

Três meses se passaram, nossos pais já sabiam do relacionamento. Eu com 14 e ele com 15 anos. Éramos sonhadores e inocentes. Minhas colegas, que até então não falavam muito comigo começaram a se interessar por nós, até que chegaram no assunto sexo. Perguntaram como eu conseguia namorar sem "ter feito" e aqueles blá blá blás todos. Eu sempre dizia que não tinha acontecido e eu não tinha pressa. Comentei com o Matheus sobre o fato e ele me disse que seus irmãos mais velhos haviam o dito a mesma coisa "como não aconteceu?"

Ficamos meio desconcertados com a conversa, tentamos mudar de assunto, mas parecia que os dois estavam se indagando "por que não aconteceu?". Fomos para a casa dele depois da aula, colocamos um desenho animado japonês para assistir no seu quarto. A tarde passava lenta comigo em seus braços assistindo o "anime". Até que o desenho acabou e ficamos naquele silêncio que propicia qualquer sacanagem. Começamos a nos beijar intensamente. Suas mãos trêmulas subiam pela minha perna até a atura dos seios. Ele pôs a mão embaixo da minha blusa. Estava gelada. Foi quando eu pedi para ele parar, e gentilmente ele tirou a mão e me deu um beijo na testa. Ele estava excitado e disse que iria ao banheiro lavar o rosto. Esperei tensa no quarto. Foi nesse instante de pensamentos furtivos que tudo aconteceu. 

Seus irmãos chegaram fedendo a álcool em casa, o encontraram indo ao banheiro com a ereção visível, ele tentou esconder se trancando no banheiro, mas a porta do quarto estava aberta. Os dois pararam na porta, me olharam, se olharam e perguntaram com os olhos vermelhos e a língua enrolada. "Vocês transaram?", incomodada eu disse que não, Jordan, o mais velho perguntou por que. Eu disse que não queria. Eles riram e começaram a entrar no quarto. Pararam perto da cama e ele disse "Ele não é sexy, não é? Mas e eu? Eu sou?" ele disse isso levantando a camiseta e mostrando um abdome definido. Alice, a irmã, riu e disse "oh, você é muito sexy, aposto que ela não te rejeitaria". Eu nem consegui dizer alguma coisa, quando Matheus estava entrando no quarto, parou e viu tudo que estava acontecendo. Ele pediu para todos saírem e me deixarem em paz, mas os dois se recusaram, fechando a porta e a trancando pelo lado de dentro. Matheus gritava e esmurrava a porta. 

Jordan era maior e bem mais pesado que eu. Ele me segurou pelos pulsos quando eu tentei empurrar ele e me levantar, Alice também me segurou. Eles forçaram minha mão em seu pênis para "senti-lo duro". Foi quando eu percebi que estava em perigo com aqueles dois idiotas bêbados e chapados. Eles se irritaram com a minha cara de nojo, acho que eu poderia arrancar tudo ali e dar para os cães. Foi quando Alice me segurou, jogando o peso do seu corpo sob o meu, Jordan começou a tirar as calças, eu ainda podia ouvir Matheus batendo na porta. Eu vi o membro ereto do irmão do meu namorado enquanto ele começava a desabotoar meu jeans. 

Alice sussurrava coisas como "você vai gostar" e "relaxa, eu sei que é bom, já provei" e ainda "é bom perder com quem sabe o que faz". Eu gritei, pedi por ajuda para o Matheus e seus irmãos só diziam "Vamos dar a ela o que você não deu". Os murros na porta eram mais fortes. Parei de gritar por um instante, quando senti a pele de Jordan na minha, forçando a entrada. Ele segurava as minhas pernas e ria. Eu mal conseguia me mexer. Busquei no fundo da minha mente imagens de alegria, amor e prazer. Dos livros e do Matheus. Me calei. Recebi cada estocada calada. Os beijos, mãos e carícias nojentas não alcançavam meu ser que estava amortecido e escondido no fundo do meu ser. 

Quando Jordan acabou eu fiquei imóvel na cama. Olhando para o teto. Alice estava com o celular na mão. Havia filmado e fotografado. A porta se abriu e Matheus entrou com os olhos inchados e as mãos vermelhas. Ele chegou perto de mim, mas não deixei ele me tocar. Levantei e me vesti. Ouvia ele perguntar como eu estava e me abraçando enquanto chorava por ser incapaz de me defender. 

Eu o olhei e disse "Eu estou destruída, não sou mais a menina que você namorava, me tira daqui, é tudo que eu peço". Ele pegou minhas coisas e as suas e me levou pra casa. No mesmo dia contei para minha mãe, ela ficou horrorizada. Fizemos um B.O na delegacia. Passei pela mais humilhante situação da minha vida após o ocorrido. Os exames e afins não são nem um pouco acolhedores. Minha mãe me abraçava e segurava o choro. Matheus ficou a semana toda me ligando, seus irmãos, por serem menores receberam indiciações, mas não foram presos, os pais tiveram que pagar uma multa exorbitante. E eu, bem, eu caí na rede. Por alguns dias, mas foi o suficiente para não querer mais sair de casa. 

Terminei o ensino médio a distância. Li meus livros, comecei a cantar, fiz aulas também. Aos 19 anos passei para Serviço Social na Federal. Depois de anos com acompanhamento psicológico, reclusão e muito estudo de mim e do mundo resolvi tatuar uma frase um tanto sem sentido para as pessoas, mas com muito sentido para mim, Austen escreveu em sua obra Persuasão. "Sou metade agonia, metade esperança" envolta num mar de flores, gravadas no meu peito. Jurei nesse dia jamais deixar quem precisar de mim sozinha. Mulheres são fortes, mas como todo ser humano, são frágeis. 

Carregarei minha dor pelo resto da vida. Isso é inevitável. Carregarei também meu primeiro amor comigo. As vezes nos falamos. Ele faz Direito agora. Que coincidência não? Trabalharemos juntos de certa forma, como sempre trabalhamos, cada um com sua dor e suas metas. Mas, sou eu, eu Sabrina, a doce menina dos romances estrangeiros, que tem a força gravada no peito. 



Esse texto faz parte do desafio Imagem e Palavra do Interative-se!

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A Fragilidade da Existência Humana


A humanidade não percebe como são, todos, muito frágeis diante as catástrofes climáticas ou perante o tempo. O tempo, esse é a prova de que nenhum corpo resiste mais que, o que? 100 anos? 120? Há quem diga que os humanos podiam viver até 300 anos, isso tudo antes de Prometeu roubar o fogo do Olimpo e entregar a humanidade.

Teria ele nos dado o conhecimento e também o poder de sermos tão vulneráveis fisicamente justamente para que esse conhecimento não nos fizesse semi deuses?

Eu conheci, certa vez, na minha juventude um semi deus. Nada, nem ninguém era páreo para ele. Nada o vencia, nada o amedrontava. Ele vivia a vida na sua plenitude e cheia de coragem. Nos conhecemos em um evento de rua em 1970. Ele vestia jeans azul recém tingido e uma regata branca, que mais parecia transparente sobre seus músculos bem definidos e seu 1,95 de altura. A pele que pedia um toque para que tivéssemos certeza que era de carne e sangue e não esculpida em mármore. Os olhos que refletiam galáxias inteiras e um sorriso que nem mesmo o cupido seria capaz de imitar.

Perfeição, alguns diziam. Eu diria que ele era meu sonho e também o meu pesadelo favorito para o resto da vida.

Eu, com meus insignificantes 1,60 me encolhia em meio aquele tima de homens gigantes, até que o "semi deus", como minhas colegas o chamavam, esbarrou em mim e fez eu derramar todo o suco de uva sobre meu vestido azul claro. Karl era o nome dele, como um homem importante e imponente que parecia ser, esperei pelo xingamento, pois também o molhei de suco. Mas, o que eu esperava não veio. Ele se joelhou na altura do meu joelho pedindo desculpas enquanto procurava algo em uma pequena bolsa de treino. Ele tirou uma toalha e me ofereceu murmurando "desculpa, eu sou um desastre, todo esse tamanho só serve pra esbarrar nas pessoas" e logo que me sequei ele puxou uma camiseta enorme, que me cabia como um vestido. Tudo isso se passou em menos de 10 minutos, mas para mim foram os piores minutos de palavras trocadas sem olhares cruzados de toda a minha vida.

Minhas colegas me escoltaram até um banheiro no posto de conveniências para que eu vestisse aquela camiseta enormemente grande. Ele ficou esperando do lado de fora enquanto eu me lavava e tentava não cheirar a uva. Vesti a camiseta e embolei nas mãos o vestido. Puxei o cabelo para o lado e fiz uma trança meio desajeitada enquanto minhas colegas conversavam sem parar "da minha sorte em receber uma camiseta do Karl e blá blá semi deus".

Sai e só então ele me olhou nos olhos. Se apresentou e, mais uma vez, me pediu desculpas. Eu disse que estava tudo bem e que aquele vestido era velho (quando na verdade eu havia comprado para meu aniversário, no mês anterior). Então eu recebi o primeiro choque de encantamento vindo dele. O sorriso. Ele sorriu para mim e eu não sei como me mantive em pé após aquilo, mas parecia que meus pés estavam pisando em lama ou em areia movediça.

Ficamos andando lado a lado durante o evento e mais ou menos as 22h ele se ofereceu para me levar em casa. Caminhamos silenciosamente durante as quatro quadras percorridas até que eu parei, o olhei e perguntei:

- Por que você não me olhou enquanto me oferecia a toalha ou, depois, a blusa?

Ele ficou vermelho, pude ver mesmo estando completamente escuro na rua.

- Seu, seu vestido estava transparente e eu não queria ser indelicado.

Só então me dei conta de que meu sutiã bege e minha calcinha branca haviam ficado ensopadas com o suco, jurei odiar aquele tecido fino e leve pelo resto da minha vida. Devo ter ficado vermelha porque logo em seguida ele me agarrou pelos ombros e, olhando fixamente nos meus olhos, me disse:

- Em momento algum eu lhe desrespeitaria, mesmo que eu quisesse desesperadamente lhe beijar agora, eu não o faria se isso lhe causasse constrangimento ou repulsa. Ao contrário do que pode parecer - ele disse me calando - eu não compro a companhia de ninguém, principalmente de mulheres, ficam comigo se quiserem e gostarem de mim. Não tenho nada mais que isso que você pode ver. Eu sou somente o Karl, com seus defeitos e limitações.

Que limitações? Eu pensei, aquele homem era perfeito! Mas, logo depois eu descobri que ele tinha uma doença que poderia o matar a qualquer momento. Por isso, mesmo sendo contra os méditos, ele praticava todos os tipos de esportes, estudava filosofia e estava prestes a se formar em Direito. E eu lá, nas minhas aulas de francês e literatura. O que eu seria além de uma professora de primário para crianças que sequer entenderiam o que era o francês.

Naquela noite nos beijamos. Depois do quinto ou sexto encontro proposital nós fizemos amor na grama, embaixo de uma macieira, como nos tempos antigos em que a humanidade era livre. Ele me despiu cuidadosamente e beijou cada parte do meu corpo com devoção e paixão. Meu corpo queimava mais a cada beijo, toque ou olhar. Era quente sem ser vulgar e romântico sem ser piegas.

Só que, Karl era frágil. Quando me pediu em namoro eu pude ver a insegurança nos seus olhos, no seu toque. Ele sabia de algo que eu nem imaginava. Quando completamos um ano juntos e a minha felicidade não tinha fim ou tamanho, descobrimos que eu estava grávida de dois meses. Ele estava se formando naquele verão e já tinha planos de abrir um escritório. Achamos um apartamento pequeno e acolhedor, os amigos nos ajudaram com mobilha de segunda mão e nossos pais com a mobilha do nosso quarto e do bebê. Minha mãe já fazia sapatinhos e mantas sem nem mesmo saber se seria menino ou menina.

Estava com cinco meses quando Karl teve o primeiro desmaio seguido de convulsão. Estávamos na cozinha e eu entrei em pânico, não sabia o que fazer primeiro. Por sorte os vizinhos ajudaram. Fomos para o hospital, depois de uma bateria de exames os médicos constataram que se ele tivesse outro desses poderia ser fatal ou poderia deixá-lo numa cadeira de rodas. Quando John estava com 1 ano e 3 meses, numa tarde comum no supermercado, Karl me entregou-o e começou a se escorar numa prateleira, fazendo todos os produtos caírem. Ele teve o segundo desmaio e a segunda convulsão.

Karl não voltou a falar, não tinha forças nas pernas também. Eu tinha duas crianças em casa. Alguns meses depois descobri estar grávida novamente. Todos me chamaram de louca por querer seguir adiante com a gravidez. O próprio Karl ficou furioso. Eu entendia o que ele queria só com o olhar e alguns sons. Karl sempre fora calado e com olhos expressivos. Nada mudara de fato.

Karl ficou estagnado nesse estado por mais dois anos, tendo poucas melhoras. Ele voltou a andar e aprendeu a língua de sinais, eu também. John andava de um lado para o outro fazendo gestos e a professora da escolinha nos contava que ele pouco falava de fato, mas sim "olhava fixamente, franzia as pequenas sobrancelhas e gesticulava com as mãos de forma ligeira e firme", era exatamente o que o pai fazia.

Meu marido, Karl, se suicidou em 15 de agosto de 1976. Foi o tempo de eu descer e pedir que o zelador me ajudasse com a torneira da pia que estava jorrando água para todos os lados. Ele ingeriu muitos calmantes, logo depois foi para o quarto e disse para John (que já entendia a língua de sinais) que iria dormir. Só me dei conta depois de duas horas, com um bilhete debaixo do travesseio onde ele estava deitado, frio e acinzentado.
Eu te amei intensamente e fui muito feliz. Você não precisa de mais uma criança para se preocupar. Não sou mais o que diziam de mim, sou um mero mortal num corpo que está apodrecendo. Vou olhar por você, pelo John e pela Lili.
Você sim foi uma deusa, como Parvati, cujas lágrimas deram vida ao filho de pano, com suas muitas mãos e com suas milhares de faces. Viva, não chore, siga em frente. Não há arrependimentos, nós fomos o que tivemos que ser, nada mais. Vou dormir e lhe aguardo no Olimpo, minha eterna amada.
Karl
O que posso dizer sobre meu falecido marido? Ele foi um verdadeiro herói para todos a sua volta. Viveu intensamente os bons anos de sua vida sempre ajudando que precisasse. Jamais se negava. Estava sempre ali com seus braços e pernas fortes e sua mente aguçada, e jamais esquecendo do seu coração puro e corajoso. Eu sempre soube que ele não era o tipo de cara que seria fácil lidar. Lembro dele todos os dias, com carinho e saudade enquanto vejo meus filhos cada vez mais parecidos com ele. Lili tem seus cabelos e as bochechas que a entregam. John tem os olhos centrados e a altura. Será um homem grande, e eu, cada vez menor, mais velha e mortal, enquanto Karl será para sempre imortal na nossa memória.


Esse conto faz parte do desafio Imagem + Palavra do Interative-se
A imagem está no início e a palavra é Fragilidade

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Naquela vida em que eu só sabia ser feliz


Naquela vida em que eu só sabia ser feliz, passava os dias com a minha flauta para lá e para cá. Papai me dizia: "Filha, nem tudo são flores, tome cuidado para não deixar a tristeza de lado por muito tempo, ela pode vir atrás de você!" Só que eu não entendia nada daquilo. Queria mesmo era ser feliz com todas as minhas forças e nada, nem ninguém iria me impedir. Eu dançava, corria, cantava, pintava e todas as coisas que me eram permitidas fazer. Todas elas eu fazia. Tinha sede de viver

Casei. Quando tinha meus 18 anos, quase muito velha pra casar, me apaixonei, ele era lindo e radiante, talvez com tanta vontade de viver quanto eu. Pele aveludada, olhos da cor do grão de café, cabelos negros como o pelo de um leopardo. Em outra vida devia ter sido um, seu olhar me paralizou como um desses animais paraliza sua preza que não sabe se fica e aceirta a morte ou se arrisca tudo e corre. Essa foi a minha sorte, eu corri. Corri para seus braços, de onde jamais gostaria de sair. Casamos por amor. Meu pai permitiu. Não era algo comum, normalmente os pais escolhiam com quem os filhos iriam se casar e o amor viria aos poucos. 

Sei que todos estavam temerosos com o casamento. Do mesmo modo que eu costumava correr para as coisas, costumava também correr para longe delas. Nunca fui apegada a nada além da minha liberdade e da felicidade de viver a vida intensamente nos seus mínimos detalhes. Esse foi meu grande erro. 

Engravidei, mas não queria estar grávida. Tirei. Ninguém nunca soube, nem do seu inicio, nem do seu fim. Então depois de alguns meses novamente. Voltei a tirar. Não sei quantas vezes fiz isso. Era jovem, tinha tempo para dar um filho ao meu marido. Nós éramos felizes como estávamos. Quando completei 21 anos todos estavam esperando que a qualquer momento eu anunciasse a gravidez. Foi quando ela veio. Minha sogra contara quantos dias haviam se passado e chegou ao pé do meu ouvido "fazem 40 dias que seu ciclo não desce". Eu sabia, estava esperando e ponderando se aquele deveria ser o momento. Fingi estar feliz, ela anunciou para todos que eu carregava a quarta geração da família no ventre. Meu marido não se aguentava de tanta felicidade. 

Eu fui mimada, ganhava tudo nas mãos, não me deixavam fazer nada que envolvesse correr ou pegar peso. Eu era infeliz assim, privada das coisas que mais amava. Naquele dia de verão, quando o outono se aproximava eu senti uma dor muito forte no ventre. Senti um liquido quente descendo por entre minhas pernas. Eu estava perdendo o bebê. Chamaram o médico, a curandeira, todas as mulheres ficaram a minha volta. Estava tudo bem comigo, mas o bebê havia ido embora. Pediram para eu não engravidar novamente tão cedo, mas eu não ouvi. No outro mês estava tão feliz que me deitei com meu marido de forma mais íntima e intensa, engravidei novamente. E, novamente vim a perder. Foram 20 meses tentando, um aborto atrás do outro. Eu não segurava os bebês. 

Certa vez perguntei para uma velha senhora se isso poderia ser causado pelos constantes abortos anteriores, ela disse que provavelmente não. Que era mais garantido que eu pensasse que a criança sabia que eu não a queria. E eu realmente não a queria. Portanto, quando ela começava a ficar madura, se soltava do pé, caindo por entre meus pés em forma de sangue e líquidos. 

Aos 23 anos meu marido casou-se novamente e eu fui devolvida ao meu velho pai. Ele foi obrigado pela família a fazer isso. Eu já não era nada feliz. Não cantava, não dançava, fazia somente o que me era pedido em silencio e resignação. Eu desgastei a porção de alegria e irresponsabilidade da minha vida. Hoje, consigo ver que a tristeza realmente veio me buscar, de tanto que eu fugia de seus olhos atentos e inteligentes. 

"Não tenham medo crianças", eu sempre digo para meus sobrinhos. "A tristeza sempre chega, sempre te encontra, então, apenas viva a dor, sinta-a no momento que ela tiver que ser sentida, nem mais, nem menos. Aprendam a não temer seus paços pesados e desengonçados. Andem ao seu lado e lhes falem sobre suas dúvidas e desamores, ela sempre nos entende"

Isso não é uma história sobre aborto, filhos, felicidade por ser mãe ou uma mulher completa. Isso é apenas um relato de quem não se manteve atenta as suas próprias oportunidades de ser humana. Uma história de alguém que fugiu todos os anos da tristeza e da dor. Alguém que foi contra a lei natural da vida que diz que a dor deve ser sentida


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Palavra: Delícia
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Ele seria uma bela nota de rodapé


Era um dia quente, mas havia uma brisa forte e gelada. Iria chover a qualquer momento. Eu assistia-o se locomover até onde eu estava. Seu cabelo levemente bagunçado pela pressa em chegar. Haviam pequenas flores que caíam da grande árvore no canteiro central do qual ele passara. 

Eu estava do outro lado, com as pernas em formato de lótus, mexendo num livro sem conseguir me concentrar. Estava nervoda. Esse tipo de coisa não costumava acontecer comigo, mas quando se tratava dele, ah, então eu era outra. Passava mal, perdia as palavras, ficava esperando uma mensagem. Ele era aquele tipo de pessoa da qual as pessoas admiram, mas que temem se aproximar. Sua timidez fazia as pessoas terem cautela ou até mesmo não insistir muito numa conversa. Mal sabiam elas que por dentro ele era outro. Extrovertido, brincalhão, diria que até um sedutor experiênte - ou eu me sentia uma boba quando ele estava perto -, a questão é que ele não percebia nada disso. 

Não se achava merecedor, ou o excluído, aquele que não se adapta ou que não sabe como flertar com uma garota. Ele tinha era dificuldade de lidar com pessoas rasas. Talvez eu fosse uma delas, já que ele me olhava com um misto de receio e de desejo, o que me deixava ainda mais nervosa. Ele não demonstrava estar verdadeiramente interessado em mim, o que me deixava nessa constanhte dúvida. Eu me entrego, digo o que sinto ou fico esperanhdo ele achar que gosta de mim, e então tomar iniciativa? 

Mas, não fou naquele dia florido, agradável e apaixonante que eu decidi contar. Eu, boba que sou, decidi me declarar contando que gostava de um menino, enviei a mensagem de texto e esperei retorno, não veio. Falei então, abrindo meu coração, que não sabia lidar com isso, com a ideia de gostar tanto dele e que parecia não ser recíproco. 

Então a resposta veio. Ele respondeu com todo o carinho em um texto gigantesco, dizendo que se eu gostava tanto dele era pra dizer, que não me faria bem guardar e que aposto que o menino estaria sim afim de mim, afinal, "você é encantadora". Fiquei mais de 30min encarando aquela mensagem, foi quando resolvi dizer. "Então, eu conversei com um amigo e ele me aconselhou a te dizer que, bem, que eu gosto muito de você. E, eu queria saber o que você sente quanto a isso?"

Uma torturante hora se passou, então meu celular brilhou. Era uma mensagem dele. "Eu sinto o mesmo. Mas, acho que agora não posso mais te dar o que você espera que eu lhe dê."

Eu, chocada, não entendi, resolvi ligar. Liguei uma, duas, cinco, dez vezes. Foi quando uma voz feminina atendeu. "Alô?". eu exitei "Oi, é, eu queria falar com o Vini, ele está?" houve silêncio por um longo minuto "Alô?" perguntei, "Olá, qual o seu nome mesmo querida?", estranhei, sua voz parecia engasgada de choro, "É Aline" falei por fim. 

Estava preocupada nesse momento, não entendia a tensão no ar nem o porquê de ele não atender o celular, foi quando ela me tirou dos meus devaneios infantis com a trágica notícia, "O Vini, minha querida, ele, bem, ele foi... foi atropelado enquanto atravessava a rua. O celular ficou em pedaços, mas resgatamos o chip, foi quando você ligou. Querida, sente-se ok? Vou terminar de contar." ela disse quando abri a boca pra falar, "O Vini não está mais aqui, ele se foi. Eu sei que vocês estavam num lance há tempos, ele sempre me falava que estava falando com você ou indo ver 'sua amiga Aline', sinto muito pela nossa perda, ele era um bom filho. Ele nem conseguiu se inscrever na faculdade de medicina, havia passado em três vestibulares, mas acho que estava relutante em escolher porque todas eram em outro estado. Eu sou mãe dele e perdi minha vida. Se quiser me ver, ou pegar alguma coisa sua que esteja com ele, meu endereço é..." foi quando eu parei de ouvir.

Não podia estar acontecendo, ele havia me enviado a mensagem. Parei então e tomei forças para perguntar: "Qual foi o horário do atropelamento?", ela parou e depois de uns segundos respondeu "16h33min" dei tchau e desliguei. Olhei o celular. Sua ultima mensagem fora enviada às 17h, ele foi atropelado lendo a minha mensagem, talvez enviando aquela resposta. Ou, talvez, o amor da minha vida havia sido um anjo.  

Hoje, depois de 4 anos da morte do Vini posso dizer que sinto menos sua falta. Sou paramédica. Ajudo as pessoas, salvo vidas, perco algumas, diria que nesse mar de histórias se cruzando em um gigantesco livro, o Vini, meu querido Vini, seria uma bela nota de rodapé. 
"Vinícius, 25 anos, olhos azuis, meio verdes, meio cinzas, cabelo bagunçado e um sorriso tímido. Eu o amava, e sei, que onde quer que ele esteja, ele ainda me ama."

255. "Eu não sabia o que estava acontecendo naquele momento".

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Onde há amizade, há amor!


Era uma vez, quando o mundo era mais mundo e mais bonito do que é agora, quando as plantas e os animais não eram inferiores e eram chamados de lit. Os lits eram criaturinhas translucidas, sem uma forma específica, mas algumas características eram marcadas conforme a forma das quais eles nasciam. Haviam aqueles que nasciam das águas e do coração de luz que gerou toda a vida, aquelas que nasciam das folhas, das raízes ou da terra, tinham os delicados que nasciam das folhas e do vento, ou os que nasciam do centro dos vulcões, os das pedras e por assim iam as coisas.

Certo dia eu pude presenciar o amor surgindo em dois pequenos lits, uma bela das pétalas e um gentil da terra. Vi sua amizade crescendo, simples e verdadeira, até explodir em fagulhas de luz com um pequeno toque que gerou tanta luz como uma estrela explodindo no universo! Era assim que acontecia o amor de almas com os lits, esse amor era diferente do amor universal que vibrava na terra, que todo vivente conhecia tão bem.

Os dois pequenos andavam lado a lado, eles brilhavam e o ar ao seu redor era doce e fresco como mel e o vento pós chuva no quente do verão. As folhas sutis que pendiam na pequena cintura da mocinha, os fios de luz e orvalho que eram seus cabelos, os lábios como um botão de uma minúscula flor. Ela deslizava sob o ar. Já o jovenzinho, maciço, quente, ligeiro na sua calma despreocupada. Por onde andavam uma nova relva verdejante surgia.

Tudo era lindo naqueles dias, as noites eram iluminadas, não eram escuras como as que nós conhecemos hoje. Era fresco, o crepúsculo brindava com o dia. As nuvens no constante azul, rosa e laranja. Era a terra do verão. Até aquele dia em que tudo tornou-se como é agora.

Estávamos com nossos afazeres, quando nos comunicaram que seres precisavam de nossa ajuda. Crianças perdidas no universo que aguardavam pelo nosso apoio e esperavam ser acolhidas.

Estava tudo certo, até que aquela bola de luz veio se aproximando, só que quando chegou perto o suficiente para vermos que a carruagem que vinham era feita de lava pura que guardava formas negras, eu diria que até disformes, deformadas pela tristeza, desamor, o mal e a ganância. Quis gritar e voltar atrás no que disse, eles acabariam com toda a beleza que havia aqui.

Quando a carruagem aterrissou pude ver seus pés finos e compridos surgindo entre a multidão de pequeninos. Eles tinham pelos, garras, prezas e chifres. Quando andavam o chão todo tremia. Alguns, poucos, ao entrar em contato conosco desabrocharam em luz e leveza. Explodiram em fagulhas ao encontrar seu par. Dois pequenos seres das águas, duas fagulhas de luz e vento dançando nos céus. Por anos esse dilema se estendeu. Foi quando senti as mudanças.

Uma camada estranha surgiu na superfície, hoje eu sei que se chama terra, a terra que nós conhecemos. O ar ficou pesado. A raiva tomou conta do meu ser. Além de descumprirem as regras, eles haviam levado consigo os lits bondosos e ingênuos. Em poucos milênios tudo virou escuridão. Garras, prezas, cortes, carne, sangue. Ainda, hoje eu semeio a simplicidade, o amor e a bondade. Ainda vejo o amor explodir em fagulhas, o beija-flor e as suas amadas. A terra que tudo brota. E eu, continuo aqui, esperando o tempo em que seremos novamente seres de luz, amor e sutileza. Eu sou Gaia e deixo um pouco da minha história e da de meus habitantes do reino animal, vegetal e mineral.

Obs: Segundo o tradutor do google, lit significa iluminados(a).

Esse post faz parte da blogagem coletiva relâmpago Imagem/Palavra do Interative-se! 
As palavras norteadoras são Simplicidade/Amizade.
A imagem motivadora está no inicio do post.

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Não é só mais uma carta de amor


Eu ainda tenho 21 anos, e se eu pudesse, pararia o tempo exatamente agora. Quando eu ainda tenho só uns poucos fios de cabelos brancos e você as bochechas lisinhas de quem tem pouca idade e recém fez a barba. Eu congelaria seu sorriso e as piadas bobas e sem graça que me fazem rir descontroladamente.

Cada pequeno instante que passamos, cada breve momento de alegria, eu penduraria como fotos em um varal, para que todos que passassem pela gente soubessem que nós somos felizes na nossa simplicidade de acordar despenteado e com a cara amassada e mesmo assim ter a doçura de dar bom dia para cada parte do nosso corpo: "bom dia pezinhos", "bom dia olhinhos", "bom dia barriguinha" e beijar cada uma delas. Isso parece meio bobo para quem lê (provavelmente), mas são meus pequenos tesouros.

Todos podem dizer que o ano que passou foi o pior de todos, que só trouxe coisas ruins, crise, desemprego, um presidente meia boca etc. Eu diria que sou grata, pois esse ano me trouxe você. Me trouxe como as ondas trazem aquela garrafa perdida com um bilhete dentro, daquelas que vemos nas animações da Disney.

É clichê dizer que você é a alegria dos meus dias mais banais? Ou que eu adoro fazer arte contigo? Ou ainda, que tu é o melhor amigo para empreendimentos malucos de todo o mundo (que eu tenho)?

E, eu queria te dizer, aqui, na frente de todos, que eu te amo. Amo ser completa e poder te amar nessa plenitude. Amo me descobrir através dos seus olhos. Amo a pessoa melhor que eu sou com a tua ajuda e quando tu me xinga e eu me sinto um serzinho insignificante, mas mesmo assim, você me abraça. Te amo, simplesmente por eu poder ser quem eu sou e saber que comigo você é quem é. Simples assim. Sou feliz por esses meses que estamos juntos e não quero que o tempo voe ou que a gente dure pro resto da vida juntos. Quero só a gente. Aqui. Agora. Nesse momento que foi congelado pela memória.

Att, quem te ama muito.

207. Você tem vinte e um anos de idade. Escreva uma carta de amor para o(a) seu/sua namorado(a).

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Naquela manhã, 2 de abril.


Sinto frio, muito frio. Puxo as cobertas e me enrolo mais. Não resolve muito, porque falta algo. Algo que me envolveria num abraço quente, quase febril. Algo que me tiraria as cobertas e me cobriria com pernas, braços e um tronco grande. Apesar de não estar ali fisicamente seu cheiro está em todo o lugar. Acho que é alguém lá no céu que está me torturando. Abro os olhos, ainda pesados e doloridos de uma noite mal dormida. São 8h30min, ele diria que é muito cedo para fazer qualquer coisa. Era realmente muito cedo para bancar a garota forte, sorrir e seguir de cabeça erguida. Faço uma varredura no quarto escuro para lembrar da situação que o havia deixado na noite passada. O gato comia o resto de pizza que estava em cima da escrivaninha, haviam copos de vinho espalhados por cada canto, banco, mesa ou prateleira. A garrafa estava no chão junto com meu cobertor de casal e umas roupas.

Já fazia uma semana. Uma semana sem aquela voz suave no meu ouvido a cada passo que eu dava pela casa, ou quando estava quase dormindo. Uma semana sem os beijos de bom dia e os sorrisos ao esperar a avaliação sobre o almoço estilo Masterchef. Uma maldita semana sem nenhum dedilhar no violão ou sentindo os dedos ligeiros fazendo voltas em cada cacho do meu cabelo espesso. Sem contar nas suas incríveis habilidades de fazer rir das coisas mais banais. Do fato de ele saber mais línguas das quais eu sonharei em aprender. Tudo isso não deixou nada mais fácil quando ele disse que seria melhor para nós dois, “conhecer pessoas novas é bom, sei que você vai conseguir, logo nem se lembrará de mim” foi o que ele disse. Sabe, ele estava longe de ser perfeito, mas era o meu pedaço imperfeito do paraíso e eu não queria que acabasse assim. Nem assim nem de qualquer outro jeito.

Depois de me perder em devaneios durante 15min decido levantar, tropeço na pilha de roupas. Junto-as e vou em direção ao banheiro. Minha cara está um caos. Nariz vermelho, lábios mordidos, olhos num tom marrom-azulado e inchados. Lavo meu rosto umas duas vezes com água gelada. Não resolve muito, mas decido deixar assim. Tomo um café olhando para a janela, à luz da rua era clara demais, então me encolho um pouco no sofá. O que me lembra de que não fazia muito tempo desde a ultima vez que ele estivera aqui e era torturante. Seu cheiro estava em todos os cantos do meu pequeno apartamento bagunçado. No sofá. No banheiro. Nas roupas de cama e nos meus pijamas. Até nos panos de prato da cozinha. Respiro fundo “acho que um banho vai me fazer melhor”, penso.

É quando esbarro na jarrinha de metal que ele me deu, eu coloquei flores artificiais porque não consigo cuidar de coisas que necessitam de muita atenção. Lembro quando deixei meus cactos morrerem, um secou e o outro acabou apodrecendo no mesmo vasinho, sendo que normalmente eles são fáceis de cuidar. Não sei como ainda estou viva, com tantos desastres. Então paro e lembro:

– Era ele que me fazia permanecer viva. Era ele que cuidava de mim. Digo num sussurro.

Peça por peça minhas roupas caem no chão. A banheira antiga já está cheia. Me sento com cuidado. A banheira se tornou muito espaçosa sem suas pernas grandes e as coxas grossas. “Por quê você me deixou, hein Felipe?”. As lágrimas escorrem sem esforço algum. Então eu mergulho. Vejo tudo turvo. Não há mais lágrimas. Apenas a lembrança de como nós éramos.

O primeiro encontro num café bonitinho no centro da cidade. O segundo encontro no ônibus, quando eu meio sem jeito sentei longe com medo de parecer desesperada para vê-lo novamente. Ele saiu do seu lugar e foi sentar comigo. Nós nos beijamos depois. A nossa primeira vez. Não sei quem estava mais nervoso e bancando o autoconfiante. Quando ele me apresentou para os pais. Quando eu o levei na casa dos meus. E finalmente no dia que decidimos que ele moraria aqui. Foi tão natural: “Eu vou te emprestar umas panelas”, “Posso deixar umas roupas aqui?”, “Alô? Oi Jô, acho que deixei minha escova de dente aí, pode conferir pra mim?” e então vieram os livros, os calçados, e o resto do quarto que era necessário. E um belo dia ele percebe que era jovem demais para “tudo isso”. Que precisava viver. Precisava do espaço dele. Da vida dele. Da solidão.

Eu disse: “ok”, mas no fundo eu queria dizer o quão idiota ele era e como conseguia ser egoísta ao ponto de só pensar no seu próprio umbigo! Acho que era isso que ele queria. Mas, eu, tola, não sou do tipo que faz o que as pessoas esperam de mim.

O ar está indo embora dos meus pulmões. Será que o gato vai saber se virar e achar uma casa quentinha, com comida e amor de sobra? Minhas contas vão acumular embaixo da porta? E quando meu celular não tiver mais bateria e ninguém mais conseguir falar comigo e se der conta de que a minha vida foi embora?

Então ele toca. Aquela música irritante. Eu levanto. Meus pulmões ardem por ficar tanto tempo sem ar. Olho a tela que estava acesa em cima do balcão da pia. Era ele.

– Oi... Felipe.

– Jô, oi, é... quer tomar um café? Um grande segundo se passa. – Alô?

– Oi. É... hmm. Não sei. Eu... Eu não esperava por isso, então, não sei.

– Tá, eu posso esperar, mas, não demora muito. Não quero que o café esfrie e as flores murchem. Havia um sorriso na sua voz.

– O quê?

– Só abre a porta Jô! Oxe! Cê tirou a chave reserva que estava embaixo do tapete da entrada. Eu pisco várias vezes até entender o que estava acontecendo, mas meu cérebro se recusa a cooperar depois de tanto tempo sem oxigênio.

– É que eu tô no banho. Me dá uns minutos. Me apresso pra pegar uma toalha e sair da banheira.

– Tá. É a resposta que eu ouço de longe. Corro ainda molhada, com o cabelo pingando, de pés descalços e enrolada na toalha. Abro a porta e lá está ele. Naquela camiseta preta que ele adora e que eu também. Com o cabelo desgrenhado pela ansiedade e os dedos nervosos. Ele tem flores de verdade nas mãos e uma térmica de café.

– Vim saber se você estava bem. Ele olha ao redor. Acho que a casa sente a minha falta, tem uma calcinha na mesa Jô!

Eu ri. Ele entrou, ainda meio tímido. Eu sabia o que o silêncio mascarado não queria dizer. Ele também sentiu saudade. 

Este post faz parte do Desafio Imagem & Palavra do Interative-se! Eu recebi a imagem 7, que está no início do post e me serviu de inspiração. Queria agradecer ao meu namorado também que foi usado de modelo e porque ele vai pra praia ficar 20 dias longe (isso me deixou meio jururu e eu resolvi escrever um pouco sobre).
 Interative-se!
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As pessoas que tem o coração sensível


Existem pessoas que merecem mais atenção. E elas são aquelas crianças dengosas, que choram por tudo, cheias de manha e que pedem carinho o tempo todo. Essas crianças se refugiam no colo dos pais quase que o tempo todo, elas necessitam de segurança e uma base forte. Essas são as crianças que amadurecem cedo com sua própria dor. Elas sentem demais, elas sofrem demais, elas se decepcionam demais também.

Elas são aqueles adolescentes que se revoltam com a família, que brigam com os amigos e que mutas vezes atentam contra a própria vida. Morrer, sumir, sair de dentro de si, ser outra pessoa, ser invisível etc. Pessoas que não aguentam a pressão vinte e quatro horas por dia, pessoas sem um bom escudo contra a intolerância alheia, pessoas que só querem fazer sua arte, ser quem são, serem aceitos e amados.

Essas pessoas são chamadas de vagabundos, gente de humanas, sentimentais, emos, de filhos ingratos, preguiçosos, e coisas que não devem ser ditas em voz alta por nenhuma pessoa que você ama mesmo que só um pouquinho. Isso tudo porque querem ficar horas pintando, escrevendo seu "futuro livro de crônicas", por ficar inventando coisas que nenhuma multinacional vai querer comprar. Simplesmente por ser o gênio louco ou ser o moço que vende arte na Redenção (Parque Farroupilha aqui de Porto Alegre).

Eu acho, na minha humilde opinião, que as pessoas são cruéis e estão tão imersas em seus problemas que são rudes com os outros, tudo bem, isso faz parte da vida, mas quando se fere o outro pelo simples fato de que ele não está fazendo as coisas como você gostaria, aí meu bem, você é que está errado!

Por essas e outras coisas é que eu choro. Pelo descaso humano com quem mais precisa de afeto, pelo menosprezo, pela insensibilidade, pela falta de afeto. Pela falta de humanidade nas pessoas!

21. A última vez que você chorou.
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O dia em que eu distribui amor nas ruas


Era sexta feira, o dia em que eu vou almoçar com o meu namorado. Detesto rotinas, mas essa rotina eu detesto ter que esperar para realizar. Estava saindo de casa e encontrei uma mochila largada no meio da rua. Olhei para um lado e depois para o outro, não havia ninguém na rua que poderia me dizer de quem era aquela bolsa. Optei então por abrir e olhar, não havia um documento sequer, gelei. O que fazer com aquelas notas flutuantes no fundo da mochila de lona áspera? Pensei, vou esperar, alguém irá aparecer. Voltei para casa e guardei-a. Subi a rua correndo, o que depois me fez ter a sensação que iria morrer e que meus pulmões haviam sido arrancados do meu peito, mas no fim, deu tudo certo, voltei a respirar normalmente. 

Perguntei para o moço do armazém se alguém havia perdido um bolsa, assim, como quem não quer nada, mas ele nada sabia. Minha mãe ficou encarregada de perguntar para os demais na rua. Mas nada mudou a situação da bolsa, ela continuava lá, inerte, esperando que alguém a salvasse. 

Quando cheguei em casa à noitinha constatei que aquilo deveria tomar um rumo, e logo de preferência. Liguei para um asilo e pedi o número da conta para depósito. Depositei 20% da quantia. Depois com mais ou menos 5% do dinheiro depositei para mais ou menos uns 3 anos de consultas com meu psicólogo. Guardei 5% pra mim, mas ainda assim sobraram 70% do dinheiro, o que eu faria? 

Então peguei uns envelopes vermelhos, escrevi a palavra "amor" em cada um, e cara, isso foi cansativo demais! Coloquei uma nota com um valor considerável em cada um, coloquei-os detro de uma sacola e sai nas ruas. Parei algumas pessoas e perguntei o que elas mais precisavam, algumas paravam, outras só faziam um sinal negativo com as mãos, mas por fim, aquelas que me dedicaram 5 minutos eu entreguei amor, um abraço, um carinho e aquele envelope com dinheiro. Algumas pessoas não falaram nada, outras riram, teve aquelas que choraram, e teve aquele senhor que disse que iria usar pra tomar um banho e comprar umas roupas, ele morava em frente á um banco. Pra esse senhor eu dei mais amor, porque era ele que mais precisava.

Aquele senhor nunca mais foi visto nas ruas. Eu continuo sendo uma anônima que doou sete dígitos para um asilo, que deu dinheiro nas ruas e que gritou com uns homens, mas que conseguiu fugir no meio da confusão. Não sou nada melhor que ninguém, afinal, eu usei 10% para meu uso pessoal, de uma bolsa cheia de dinheiro que não faço ideia de quem seja, não houveram roubos, perdas ou nada parecido noticiado no jornal. Caiu dos céus? Não sei, sei que do céu caem pingos de chuva. 


256. Encontrou uma bolsa cheia de dinheiro e sem documentos.

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O quão velha eu sou!

Há algum tempo eu participei dessa brincadeira que a página "Artes Depressão" propôs. Dizer o quão velho se é sem dizer sua idade, então escrevi esse pequeno textinho para dizer o quanto sou uma senhorinha! Mas, não ousem perguntar minha idade, não se faz isso para uma dama! u.u
Link da publicação aqui!
Lembro-me claramente daquele dia conturbado em que as ilhas vulcânicas, situadas no atual Oceano Atlântico entre a Europa e as Américas, foram submersas pelo mal instalado no meu seu interior. Foram semanas sofridas nas embarcações precárias para abrigar tantas pessoas do nosso povo, porém quando parei de contar os dias e semanas pude começar a sentir o ar gelado das terras frias, meu coração se partiu e entendi que jamais voltaria a ver terra tão bela quanto aquela que um dia foi meu lar. Foram muitos anos para me acostumar com os dias curtos e sem sol. Quando o inverno chegava, eu me prendia as minhas lembranças do sol, dos parreirais, das campinas verdejantes e dos templos de pedra branca cuidadosamente erguidos. Bons tempos aqueles em que a Grande Biblioteca era meu lugar preferido, e de quando anoitecia e nós ficávamos observando o céu a procura de presságios nas constelações. Em que a inocencia reinava no meu coração e eu não tinha o discernimento para perceber as tragédias a minha volta. Penso que a igniorância pode ser uma forma de salvação, o conhecimento trás muitas obrigações e responsabilidades, mas não me arrependo, segui o caminho que meu coração trilhou. Porque, através de mim e dos meus que um dia chegaram nas terras semi alagadas em que a névoa cobria sutilmente as raízes nos dias frios, as civilizações poderam partilhar dos ensinamentos do Grande Império que afundou no mar. Hoje somos uma lenda, lembrados por nossa poderosa tecnologia, que era tão comum quanto falar ao celular e também pela catástrofe que trouxemos para os nossos descendentes: a morte. 
Baseado nas leituras de Marion Zimmer Bradley.

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Carta para meu querido desconhecido


Shakespeare disse: 
Estas alegrias violentas, têm fins violentos
Falecendo no triunfo, como fogo e pólvora
Que num beijo se consomem.
Hoje está uma bela noite, as estrelas decoram o céu em seu misto de negro e azul marinho. Eu estou deitada na cama, olhando para o teto e recordando das coisas da vida. Dos beijos, dos abraços, dos encontros mal planejados, dos sorrisos, das felicidades tão meramente momentâneas que em poucos dias nem um suspiro de recordação restava. Como fomos fúteis, meu querido desconhecido. Estivemos um nos braços do outro durante inúmeras noites, os beijos e os sorrisos de despedida parecem-me tão superficiais agora. Te abanar da janela do meu apartamento do terceiro andar vestida apenas com a minha camisola de cetim, sem medo do que os outros iriam pensar. 

Eu serei perdoada se argumentar dizendo que era infantil? Que para mim a vida era tão fugaz que deveria ser vivida intensamente? Acho que isso não é uma boa desculpa para dar a alguém como você que entregou sua alma e abriu seu coração para uma pessoa como eu. E o que eu fiz? Machuquei-o. Feri quem provavelmente poderia vir a se tornar o amor da minha vida. 

A culpa foi daquele maldito verão de 1940 quando aceitei viajar para o litoral com minhas amigas. Elas disseram: "Divirta-se, você logo estará casada com aquele Advogadozinho metido!", mas eu estava bêbada demais para contestar, e você, você estava tão atraente com aquela camisa azul da cor do mar. A música era tão sedutora quanto seus lábios finos. Eu nunca gostei de caras como você, sempre tão esnobes, pareciam que não ligar para mulheres como eu, e provavelmente fosse isso, eu era esnobada por ter herdado a fortuna da minha família e os cabelos de Cigana da minha mãe. Pobre mulher. 

Aquelas férias foram inesquecíveis! Admito, mesmo se quisesse não haveria como esquecer tudo o que passamos. Você me fez pular nas águas geladas daquela cachoeira, eu tremia feito um passarinho recém saído da casca! Mas você ria de todas as coisas que eu fazia mesmo não sendo nem um pouco engraçado. Acho que o senso de humor estava somente em você, e as coisas eram cômicas porque eram com e pra você. Então o verão acabou. E cada um deveria voltar para sua vida cotidiana. Voltaríamos a ser meros estranhos um para o outro. Na verdade, sempre fomos estranhos, nosso relacionamento tão íntimo, tão verdadeiro foi também tão superficial. Problemas e deveres não existiam, nada além de festas, bebida, sexo e diversão era citado no nosso dia a dia. 

Erramos mais ainda quando tivemos a magnífica ideia de nos encontrar na surdina. Entrar e sair no meio tempo que meu noivo não estivesse lá me visitando, visitas feitas para saber o que eu estava fazendo. Mas, afinal, qual o problema não é? Ele nunca aparecia antes das onze e meia da manhã e jamais passava das dez da noite fora da sua cama. O trabalho o requisitava cedo, todos os dias. Ele era o homem que beijava a minha mão e almoçava comigo. Você beijava as minhas coxas, seios e ombros, éramos a refeição um do outro. 

Até aquele dia fatídico. Por que um homem de negócios largaria o trabalho no meio da manhã para ir a casa da sua noiva contar que virou sócio do Escritório de Advocacia mais ilustre da cidade? Por quais motivos ele decidiu acordar sua noiva e a surpreender enquanto ainda estivesse com os tecidos finos e semitransparentes da sua roupa de dormir? Porque, na verdade, ele ficara sabendo que sua noiva estava tendo encontros com um homem qualquer que trabalhava para uma loja que vendia e arrumava livros estragados.

Ele abriu a porta aparentemente como sempre, mas carregava uma pistola na cintura. Eu não lembro quais foram as palavras que ele gritou ao ver você me abraçando. Nós estávamos tão envoltos em nossos próprios seres, em nosso próprio mundo, que o resto era o resto. Mas o estampido que a bala fez ao sair do cano da pistola chama qualquer um para vida, e para a morte. Você sangrou litros, pensei que havia morrido e a mão dele era pesada ao agarrar meu braço e me arrancar dali. Quando voltei ao apartamento o tapete havia sido removido e as roupas de cama também, mas o colchão ainda tinha marcas suas. Nunca mais tive noticiais suas durante todos esses anos, nos mudamos, meu noivo e atual marido na época abriu uma filial do escritório em outra cidade e nos fomos para lá com nossos dois filhos. Desde lá se passaram trinta anos, fui ao antigo escritório para agilizar os papéis relacionados as posses do falecido, ele teve uma parada cardíaca no meio da noite, quando acordei já era tarde. Estava voltando de lá, por uma ruazinha, quando vi na vitrine de uma livraria uma foto sua dizendo que estaria lançando seu terceiro livro. Você está vivo, mas eu não tenho o direito de reivindicar algo. Eu o feri e convivi trinta anos com isso, com o olhar atento do meu marido em relação as minhas idas e vindas cotidianas. Éramos um casal feliz, eu sabia disfarçar. 

Espero que esteja bem e que não sinta mais as dores que aquele dia lhe causou. Espero que o dono da livraria consiga lhe entregar a carta, quem sabe você ainda se lembra das vezes que dançamos bêbados na areia da praia. 
Seja, acima de tudo, feliz em meu lugar, seja feliz por mim, por nós. Viva, pois eu morri. 

Ass: Sua amada.

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Cartas perdidas de Isabelle


Isabelle escrevia em seu diário todas às noites, mas algo mudou em sua vida, num daqueles dias ensolarados demais e que a roupa gruda no corpo e tu só quer um banho. Ela encontrou o amor da sua vida, que duraria um pouco mais de um ano, e durante aquele ano ela se absteve de escrever em seu velho e fiel amigo diário e passou a anotar coisas aleatórias sobre ele. Por quê? Porque ela o amava em qualquer lugar e a qualquer distância.

Porém, as coisas começaram a dar errado. Ele pouco falava com ela, pouco a ouvia, pouco fazia questão de vê-la, e aquele amor genuíno foi se tornando ódio, ela o odiava com todas as forças possíveis e impossíveis de seu corpo franzino de 1,55 de altura. Ela o odiava até a raiz dos cabelos ruivos, em todas as sardas do seu rosto, em cada pequeno traço de seus olhos verde acinzentados. Ela odiava o fato de não conseguir odiá-lo por muito mais de uma semana, pois na outra ele lhe enviava uma mensagem sedutora e ela transbordava pelas bordas de suas curvas tão sutilmente desenhadas pela mão de algum artista perverso.

Isabelle é uma mulher doce, é um vulcão, ela está em constante ebulição, mas como lidar com isso? Se nem mesmo seus amigos e parentes a entendem? Se refugiar nos braços de alguém e ser submissa? Jamais! Ser “rotulada” como fácil? Será que foi isso que lhe sobrou? Ela pensava dias e noites, incansavelmente. E foi em um dia igual aquele que ela o encontrou que resolveu lhe enviar cartas, estas que seriam entregues via telepatia ou tele-transporte, pois nunca seriam lidas pelo homem do sorriso sedutor que roubou seu coração de menina e o corrompeu com beijos desejosos.

Ela disse para si mesma, agora chega, depois disso serei uma nova mulher, não! Serei eu mesma novamente, reformulada após esse longo tempo de afastamento do meu ser. Ela me escreveu contando tudo isso esses dias, e me permitiu ler as cartas, que diziam basicamente assim:

11. 05. 2014
Eu nunca pensei que iria me apaixonar por você no momento que dei “match” naquela rede social, pensei: “Ah, legal, ele deve ser alguém agradável de se conversar.” Mas, era muito mais. Suas palavras eram doces sem serem chatas, era divertido de um jeito culto, você era uma ilusão tão convidativa que seria tolice resistir, foi o que pensei na época, afinal, o que poderia dar errado? Tudo, absolutamente tudo poderia dar errado.
Depois de todos os meses, quando eu achei que estava segura e pronta para seguir em frente, você me chama e diz que me deseja, e novamente, seus lábios e olhares se tornaram tão convidativos. Tenho que ser forte. Sou forte, sempre fui e sempre serei. Não me trate como se fosse uma boneca, você sabe que não sou e que nunca fui. Foi bom enquanto durou, embora aquela angústia sempre esteve presente em meu peito,meus olhos eram loucamente apaixonados pelas sardas que desenhavam constelações em seu corpo.
Ah, seu corpo, tão sedutor (para mim), não tenho palavras para descrever, embora seu coração fosse um túmulo vazio. Não quero ver meu nome na lápide, então, meu bem, adeus.

27. 06. 2014
Meu caro ex-amor. Você foi ridiculamente desnecessário ao dizer “mas a minha garota gosta assim”. Você sabe que sou e sempre fui perdidamente apaixonada por ti, e mesmo assim, depois de tanto tempo que não nos víamos você falou aquela (com o perdão da palavra) merda.
 Você não sabe o poder que exerce sobre mim. Meu corpo todo congela, foi assim desde o primeiro encontro. Não sei como lidar com isso, não sei o que fazer para me curar dessa doença que é te amar. Veja só, até rimou, que coincidência maldita.
Eu poderia ter sido qualquer um de seus adjetivos pejorativos – dos quais todos os homens acham o máximo e um elogio, mas nós mulheres só gostamos de ouvir na cama, às vezes – e saiba que se você precisasse de um rim eu seria a primeira a entrar na fila de doação. Eu busquei te entender, mesmo que você não fizesse o mesmo.
Eu, com meu amor de menina quis mudar e curar seu coração. Então não faça pouco dos meus sentimentos e também não espere que eu pare para trocarmos palavras vazias no meio da rua. Não sou mais assim, não sou mais aquela menina que você conheceu e tomou nos braços sob a luz bruxuleante do quarto.
Não o farei mais. Não me verá mais. Muito menos saberá de mim. Serei livre como o vento e quem me ver saberá que vivi a vida no limite.


E foi assim que Isabelle nos deixou após uma dose de whisky naquela noite chuvosa, com um vestido negro e a boca vermelha. Uma mala debaixo do braço e a gola do casaco levantada. Ela foi ser livre como a brisa que umedecia os fios soltos de seu cabelo cor de tangerina madura. Afinal, aquela mulher é uma tempestade de verão. Ou será que é realmente um vulcão?

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Conto de além da vida na Terra


Minha bisavó me contou uma história, foi um dia, desses bem comuns, quando nós nos sentamos na beirada da janela e contemplamos o céu. Gostaria de poder sentir o cheiro das árvores, pensei, então ela suspirou e disse, naquela sua voz rouca e cansada, porém suave.

- Sabe, minha querida, nem sempre o mundo foi assim, intocável. 

- Eu sei bisa, eu li naquele e-book da escola. 

- Não, meu bem, tu não sabes nem a metade. O cheiro das árvores, da chuva e da terra molhada, da lama, dos pés descalços na grama e de contemplar uma abelha em seu voo ligeiro. 

Então, fiquei em silêncio por uns segundos fitando seus olhos vagos, perdidos nas lembranças do passado.

- Como chegamos até aqui? O que aconteceu realmente, que a história omite? 

- Foram os homens gananciosos, primeiro vieram as queimadas, o desmatamento, e por consequência o efeito estufa. Depois as inundações repletas de resíduos tóxicos industriais, a floresta, os rios e lagos morreram, os peixes, os animais terrestres e logo depois as aves. Flores e insetos. Hoje eles tentam reconstruir a beleza da terra verde e azul, mas nada será como aqueles lindos dias de glória em que nós vivíamos pensando no dinheiro e trabalho, longas jornadas de trabalho exaustivas. Presos em ternos e amarrados em gravatas numa sala com ar gelado. Nós nos perdemos naquela curva chamada corrupção, minha querida. Lembre disso. 

Então ela sorriu, um sorriso triste e melancólico. Foi nesse dia que eu soube que jamais seria assim, mesmo que nunca chegasse a ver uma árvore no jardim em toda minha vida.

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A bruxa que vivia aos pés da colina

Aos pés da colina mais alta, no fim do mundo, existe uma casinha entre os pinheiros. Sua chaminé nunca cessa seu trabalho de expulsar a fumaça cheirosa pelos ares. Nessa casinha singela, coberta por musgo, que vez ou outra expõe seus tijolos vermelhos, mora uma bruxa tão doce quantos os doces que fabrica.

Contam as más línguas, que, quando jovem ela era muito bonita, que sua beleza perdurava geração após geração. As mulheres que habitaram aquela casinha foram contempladas com longos cabelos cor de fogo, olhos azuis e um sorriso encantador. Mas, apesar de toda a beleza, as pessoas as temiam. Por isso, filhas, mães e avós sempre acabavam sozinhas. Mas, não vamos nos deter as bruxas que passaram por ali, e sim na atual senhora que habita o lar dos doces frescos de todas as manhãs.
A bruxa, que mora aos pés da colina, gosta que a chamem de Dorotéia, pois soa engraçado. Vive sozinha, disse que nunca teve filhos, e teme não poder passar suas receitas miraculosas adiante. Seus olhos azuis como o mar escondem tristezas maiores que o céu, salpicado de estrelas à noite. E, mesmo assim, quando ela sorri, seus seis dentes brancos, emoldurados pelas várias ruguinhas de seu rosto, reluzem alegria.

Todos os dias ela acorda cedinho, antes que a lua se despeça e começa seu árduo trabalho de colher lenha para o borralho, logo que o sol nos brinda com os primeiros raios brilhantes da manhã, na soleira de sua janela descansam uma torta de maça, ainda saindo fumaça, pães doces e salgados, bolinhos de queijo, biscoitos em forma de borboletas e flores (em cada estação os biscoitos tem formas diferentes), pequenos bolinhos com açúcar colorido em cima, e quindim, que eu chamo de bolo de sol, por ser tão dourado quanto o próprio.

Eu a visito todas as manhãs, minha mamãe pede que eu busque os pães com erva doce da bruxa, em troca ela manda cinco moedas e um litro de leite. Bato a porta verde, três vezes. Ela abre mostrando a bruxa com um pacote bem enrolado entre os braços, em cima um bolinho colorido e um pedido de silencio nos olhos, ela pisca, me entrega o pacote, e eu o leite e as moedas, sorrio e saio. Ela aguarda uns instantes e fecha a porta, posso ouvir o ranger lento após uns dez metros.

Uma vez perguntei para a bruxa Dorotéia por que ela era tão sozinha, se não tinha medo de escuro ou se sentia frio à noite. Ela disse que seu gato a esquentava, juntamente com o calor do borralho. Perguntei também se nunca tivera alguém como o papai é para a mamãe. Ela disse que uma vez teve, quando ela era bem jovem e bonita (embora eu a ache linda, de boca fechada), ele era alto como um pinheiro e tinha olhos verdes como a relva na primavera, mas que teve que ir embora, e nunca mais voltou. Diz que desde então o espera com a torta de maçã na janela, ele adorava a torta dela, mas afinal, quem não gosta?


Costumo ficar triste com a bruxa, mamãe diz que tristeza envelhece, talvez se o homem que parece um pinheiro voltar, ela volte a ser formosa como as tias fofoqueiras falam. Ou talvez ela se alegre se o milagre acontecer e bater a sua porta, como aconteceu com a mamãe. Meus pais não tinham filhos e eram tristes, até que a fada da noite me deixou em sua porta, mamãe disse que quando a abriu se apaixonou por meus olhos verdes e meu cabelo laranja, que as minhas bochechas eram rosadas como o açúcar da cobertura dos bolinhos da bruxa. As pessoas ruins dizem que eu sou um pão de mel que a bruxa fez e transformou em gente, eu gosto da ideia. Mamãe diz para eu não dar bola, que um menino inteligente como eu, não deve acreditar no que as pessoas más dizem. Pede também para eu sempre visitar a bruxa, que ela é muito solitária, e que seus bolos são os melhores. Eu gosto da bruxa, e acho que ela gosta de mim.
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A Mariposa


Nenhuma vida valia nada, por assim dizer, ela o pensava. Até sair do seu casulo, a Mariposa sofrida se deu conta, que o sofrimento não era uma característica só dela, ele existia para os outros tão vivo quanto para ela, em suas lembranças. Todos a adoravam, mal sabiam que era um bichinho vazio, envolvido pelas tramas da vida, o álcool, o sexo, a vaidade e o poder que suas balas palavras tinham.
Ela dançava belamente no ar, nos dias de sol, mas fugia da noite como o diabo foge da cruz, se é que ele é realmente real, pois, tenho minhas dúvidas. O inferno é a tempestade perto da colheita, ele destrói os sonhos que nós plantamos, tão ingenuamente, achando que nada poderia dar errado. O inferno somos nós mesmos, é criação nossa.

A Mariposa era individualista e imediatista, uma criança fútil, que nada sabia da vida, das dores e cicatrizes alheias, até conhecer o Senhor Coruja, um bicho sábio e pacifico que lhe contou sua história de dor e superação, e que, mesmo assim, continuava sorridente e fazendo graça da vida.
Ela, um ser leve e tão belo, que vivia dizendo que a vida era curta demais para viver triste, no fundo de seu coraçãozinho, era o serzinho mais triste e solitário, amargurado e egoísta que poderia voar livre pelos céus. Naquela tarde ela não voou, não comeu, não dançou. Tampouco sorriu, andou quilômetros, pensativa, o que sou eu, afinal? Indagou-se.

Por fim, concluiu que não era nada. “Eu sou, disse para si mesma, uma criança mimada, pobre de coração e solitária, ninguém me amaria pelo que realmente sou, ninguém leria as palavras tristes que rabisco em meu diário todas as noites, se por acaso, alguém olhasse em meus olhos e, por trás das ruguinhas de sorriso, enxergasse a dor que não cabe em mim, que é ridiculamente pequena comparada a dos outros, e que eu a torno tão enormemente importante, ririam de mim”.

“Por mais que não admita, sou a rainha do drama e das brumas do cigarro, das quais deixei-me levar quando experimentei pela primeira vez das mãos do Senhor Lagarta, eu sou uma vergonha, o que minha mamãezinha diria se visse as coisas que eu faço quando o véu da noite cai. O que pensariam as criancinhas que me assistem bailar pelos céus, se soubessem que eu não sou doce e pura como imaginam?! O que eu devo pensar de mim?!”


E sua tortura durou os segundos restantes de sua vida, afinal, a vida é breve, e a pobre Mariposa, por poucos minutos deixou que suas preocupações afetassem seu pensamento lógico, que, “a vida é curta demais para ser levada tão a sério”, e morreu absorta em seus dramas particulares. Contudo, ninguém esperava menos dela, pois, era apenas um objeto de desejo alheio, linda e delicada, frágil demais para se cobrar tanto. Todos a amavam pelo que sabiam que era de verdade, seus olhos eram transparentes, só ela não percebia o quão inebriante era seu voo matinal, ainda sob efeito das drogas da noite. 

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Era uma vez, uma menina... © Copyright 2011 - 2016. - Versão 9. Little nymph. Ilustração Martina Naldi. - Original de Muryel de Oliveira. Tecnologia do Blogger.