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Eu sou aquela que tem a força tatuada no peito!


Eu sei que isso não é nenhuma reunião de reabilitação que eu deveria me apresentar e dizer há quantos dias eu estou "limpa", mas acho importante que saibam, que um dia eu estive suja. Estive na lama. E que essa força toda que hoje habita em mim, nem sempre esteve aqui.

Eu era uma garota normal, de uma cidade normal, numa escola normal. Não era popular, tampouco bonita como as populares. Era a garota que ia para a biblioteca ler e sonhar com o meu grande amor ou com uma grande carreira. Tudo estava bem até um grupo de alunos novos entrarem na escola. Eram três irmãos e uma irmã. Eram lindos, populares e atletas. Além de serem novos e a curiosidade de todos. O mais velho andava com seu skate embaixo do braço para lá e para cá. A irmã, um pouco mais nova era do tipo que esnobava as populares, o que a fazia mais popular ainda. O do meio era quieto, fechado poderia muito bem andar em qualquer grupo, rir de suas piadas e saber de todas as fofocas sem ser descoberto. O mais novo ainda estava no fundamental, portanto, era um garotinho bonito e engraçado. 

Estavam consecutivamente no terceiro, segundo e primeiro ano do ensino médio. O menor estava entre o quarto e quinto ano do fundamental. Nessa época eu era do oitavo ano, que é quando você não se encaixa no fundamental e nem no médio. É uma fase difícil por sí só. Mas, quando acontece com você o que aconteceu comigo. Tudo fica absolutamente insuportável.

Foi no dia 11 de maio, eu estava na biblioteca da escola escolhendo livros para ler no final de semana, quando sem querer esbarrei em alguém. Sem ver bem, comecei pedindo desculpas. Quando levantei a cabeça pude ver que era, o garoto novo, o do primeiro ano, aquele que eu não sabia o nome. Ele me encarava sério. Estava com medo de receber um xingão, quando ele abriu um sorriso tímido e me entregou os livros. 

"Meu nome é Matheus, prazer." e eu fiquei piscando e pensando no que eu deveria dizer, então consegui pronunciar "Sabrina". Não sei ao certo se ficamos meia hora ou meio minuto nos olhando. Ele tinha lindos olhos castanhos, meio avermelhados como argila e eu não conseguia parar de olhá-lo. Não lembro bem o que houve depois, só que saímos dali e ficamos conversando sobre literatura e de como eu detestava os clássicos brasileiros. 

Semana após semana nos encontrávamos na biblioteca ou no intervalo, todos percebiam que estávamos gostando um do outro, menos eu. Eu não entendia muito bem de romances, só os lia. Matheus era sempre gentil e atencioso, sorridente, mas contido. Discreto, eu diria. Quando me dei conta do que poderia estar acontecendo entre a gente eu pirei. E ele percebeu a mudança. Fiquei mais insegura com seus toques na minha mão ou no braço. Não conseguia encará-lo. Como saber se ele sentia o mesmo que eu? Eu estava apaixonada! 

No dia dos namorados, todas as meninas que tinham um estavam carregando seus presentes. Alguns mais exagerados que os outros. As populares carregavam uma sacola com pequenos presentes que haviam ganhado. Esbarrei, por casualidade numa criança que dava doces para meninas. Ela me deu um, fiquei tão contente com aquilo. Eu só não esperava pelo que estava por vir. 

Entrei na biblioteca e fui para a minha prateleira favorita, a dos romances estrangeiros. Estava escolhendo se era melhor reler Sense and Sensibility ou O Morro dos Ventos Uivantes. Foi nesse instante em que eu estava imersa nos meus devaneios, que ele cobriu meus olhos e perguntou baixinho se eu sabia quem era. "Matheus?" sussurrei trêmula. Então ele tirou as mãos dos meus olhos e eu me virei. Ele segurava um box dos livros da Austen, não sabia se o ar tinha ido embora por causa do box, dele estar me dando o presente ou só pelo fato de ele estar ali. 

"O que é isso?" perguntei, tola e insegura. "Seu presente" ele disse sério, tentando não rir. "Mas, eu não estou de aniversário!", ele soltou um suspiro desapontado. "Seu presente de dia dos namorados. Eu sei que não somos, mas eu poderia arriscar só se tivesse um bom motivo no caso de você não aceitar o presente por não sermos namorados." Eu não conseguia mais respirar nesse momento. "Então Sabrina, quer ser minha namorada?" a casa caiu, pensei, o que vou dizer para ele? "Eu... eu... eu... sim!". Acho que nunca vi alguém tão feliz quanto Matheus nesse momento. Ele me pegou pela cintura e me abraçou tão apertado que meus pés ficaram no ar quando ele me levantou. Nós nos olhamos muito de perto, suas mãos na minha cintura me erguendo, as minhas em seu pescoço macio. Nós nos beijamos lenta e desajeitadamente, mas foi o melhor (e primeiro) beijo da minha vida

Você que está ouvindo a minha história, até aqui não consegue imaginar o que pode ter acontecido nesse relacionamento de contos de fada, que toda a garota quer, não é mesmo? Bem, estamos chegando lá. 

Três meses se passaram, nossos pais já sabiam do relacionamento. Eu com 14 e ele com 15 anos. Éramos sonhadores e inocentes. Minhas colegas, que até então não falavam muito comigo começaram a se interessar por nós, até que chegaram no assunto sexo. Perguntaram como eu conseguia namorar sem "ter feito" e aqueles blá blá blás todos. Eu sempre dizia que não tinha acontecido e eu não tinha pressa. Comentei com o Matheus sobre o fato e ele me disse que seus irmãos mais velhos haviam o dito a mesma coisa "como não aconteceu?"

Ficamos meio desconcertados com a conversa, tentamos mudar de assunto, mas parecia que os dois estavam se indagando "por que não aconteceu?". Fomos para a casa dele depois da aula, colocamos um desenho animado japonês para assistir no seu quarto. A tarde passava lenta comigo em seus braços assistindo o "anime". Até que o desenho acabou e ficamos naquele silêncio que propicia qualquer sacanagem. Começamos a nos beijar intensamente. Suas mãos trêmulas subiam pela minha perna até a atura dos seios. Ele pôs a mão embaixo da minha blusa. Estava gelada. Foi quando eu pedi para ele parar, e gentilmente ele tirou a mão e me deu um beijo na testa. Ele estava excitado e disse que iria ao banheiro lavar o rosto. Esperei tensa no quarto. Foi nesse instante de pensamentos furtivos que tudo aconteceu. 

Seus irmãos chegaram fedendo a álcool em casa, o encontraram indo ao banheiro com a ereção visível, ele tentou esconder se trancando no banheiro, mas a porta do quarto estava aberta. Os dois pararam na porta, me olharam, se olharam e perguntaram com os olhos vermelhos e a língua enrolada. "Vocês transaram?", incomodada eu disse que não, Jordan, o mais velho perguntou por que. Eu disse que não queria. Eles riram e começaram a entrar no quarto. Pararam perto da cama e ele disse "Ele não é sexy, não é? Mas e eu? Eu sou?" ele disse isso levantando a camiseta e mostrando um abdome definido. Alice, a irmã, riu e disse "oh, você é muito sexy, aposto que ela não te rejeitaria". Eu nem consegui dizer alguma coisa, quando Matheus estava entrando no quarto, parou e viu tudo que estava acontecendo. Ele pediu para todos saírem e me deixarem em paz, mas os dois se recusaram, fechando a porta e a trancando pelo lado de dentro. Matheus gritava e esmurrava a porta. 

Jordan era maior e bem mais pesado que eu. Ele me segurou pelos pulsos quando eu tentei empurrar ele e me levantar, Alice também me segurou. Eles forçaram minha mão em seu pênis para "senti-lo duro". Foi quando eu percebi que estava em perigo com aqueles dois idiotas bêbados e chapados. Eles se irritaram com a minha cara de nojo, acho que eu poderia arrancar tudo ali e dar para os cães. Foi quando Alice me segurou, jogando o peso do seu corpo sob o meu, Jordan começou a tirar as calças, eu ainda podia ouvir Matheus batendo na porta. Eu vi o membro ereto do irmão do meu namorado enquanto ele começava a desabotoar meu jeans. 

Alice sussurrava coisas como "você vai gostar" e "relaxa, eu sei que é bom, já provei" e ainda "é bom perder com quem sabe o que faz". Eu gritei, pedi por ajuda para o Matheus e seus irmãos só diziam "Vamos dar a ela o que você não deu". Os murros na porta eram mais fortes. Parei de gritar por um instante, quando senti a pele de Jordan na minha, forçando a entrada. Ele segurava as minhas pernas e ria. Eu mal conseguia me mexer. Busquei no fundo da minha mente imagens de alegria, amor e prazer. Dos livros e do Matheus. Me calei. Recebi cada estocada calada. Os beijos, mãos e carícias nojentas não alcançavam meu ser que estava amortecido e escondido no fundo do meu ser. 

Quando Jordan acabou eu fiquei imóvel na cama. Olhando para o teto. Alice estava com o celular na mão. Havia filmado e fotografado. A porta se abriu e Matheus entrou com os olhos inchados e as mãos vermelhas. Ele chegou perto de mim, mas não deixei ele me tocar. Levantei e me vesti. Ouvia ele perguntar como eu estava e me abraçando enquanto chorava por ser incapaz de me defender. 

Eu o olhei e disse "Eu estou destruída, não sou mais a menina que você namorava, me tira daqui, é tudo que eu peço". Ele pegou minhas coisas e as suas e me levou pra casa. No mesmo dia contei para minha mãe, ela ficou horrorizada. Fizemos um B.O na delegacia. Passei pela mais humilhante situação da minha vida após o ocorrido. Os exames e afins não são nem um pouco acolhedores. Minha mãe me abraçava e segurava o choro. Matheus ficou a semana toda me ligando, seus irmãos, por serem menores receberam indiciações, mas não foram presos, os pais tiveram que pagar uma multa exorbitante. E eu, bem, eu caí na rede. Por alguns dias, mas foi o suficiente para não querer mais sair de casa. 

Terminei o ensino médio a distância. Li meus livros, comecei a cantar, fiz aulas também. Aos 19 anos passei para Serviço Social na Federal. Depois de anos com acompanhamento psicológico, reclusão e muito estudo de mim e do mundo resolvi tatuar uma frase um tanto sem sentido para as pessoas, mas com muito sentido para mim, Austen escreveu em sua obra Persuasão. "Sou metade agonia, metade esperança" envolta num mar de flores, gravadas no meu peito. Jurei nesse dia jamais deixar quem precisar de mim sozinha. Mulheres são fortes, mas como todo ser humano, são frágeis. 

Carregarei minha dor pelo resto da vida. Isso é inevitável. Carregarei também meu primeiro amor comigo. As vezes nos falamos. Ele faz Direito agora. Que coincidência não? Trabalharemos juntos de certa forma, como sempre trabalhamos, cada um com sua dor e suas metas. Mas, sou eu, eu Sabrina, a doce menina dos romances estrangeiros, que tem a força gravada no peito. 



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A Fragilidade da Existência Humana


A humanidade não percebe como são, todos, muito frágeis diante as catástrofes climáticas ou perante o tempo. O tempo, esse é a prova de que nenhum corpo resiste mais que, o que? 100 anos? 120? Há quem diga que os humanos podiam viver até 300 anos, isso tudo antes de Prometeu roubar o fogo do Olimpo e entregar a humanidade.

Teria ele nos dado o conhecimento e também o poder de sermos tão vulneráveis fisicamente justamente para que esse conhecimento não nos fizesse semi deuses?

Eu conheci, certa vez, na minha juventude um semi deus. Nada, nem ninguém era páreo para ele. Nada o vencia, nada o amedrontava. Ele vivia a vida na sua plenitude e cheia de coragem. Nos conhecemos em um evento de rua em 1970. Ele vestia jeans azul recém tingido e uma regata branca, que mais parecia transparente sobre seus músculos bem definidos e seu 1,95 de altura. A pele que pedia um toque para que tivéssemos certeza que era de carne e sangue e não esculpida em mármore. Os olhos que refletiam galáxias inteiras e um sorriso que nem mesmo o cupido seria capaz de imitar.

Perfeição, alguns diziam. Eu diria que ele era meu sonho e também o meu pesadelo favorito para o resto da vida.

Eu, com meus insignificantes 1,60 me encolhia em meio aquele tima de homens gigantes, até que o "semi deus", como minhas colegas o chamavam, esbarrou em mim e fez eu derramar todo o suco de uva sobre meu vestido azul claro. Karl era o nome dele, como um homem importante e imponente que parecia ser, esperei pelo xingamento, pois também o molhei de suco. Mas, o que eu esperava não veio. Ele se joelhou na altura do meu joelho pedindo desculpas enquanto procurava algo em uma pequena bolsa de treino. Ele tirou uma toalha e me ofereceu murmurando "desculpa, eu sou um desastre, todo esse tamanho só serve pra esbarrar nas pessoas" e logo que me sequei ele puxou uma camiseta enorme, que me cabia como um vestido. Tudo isso se passou em menos de 10 minutos, mas para mim foram os piores minutos de palavras trocadas sem olhares cruzados de toda a minha vida.

Minhas colegas me escoltaram até um banheiro no posto de conveniências para que eu vestisse aquela camiseta enormemente grande. Ele ficou esperando do lado de fora enquanto eu me lavava e tentava não cheirar a uva. Vesti a camiseta e embolei nas mãos o vestido. Puxei o cabelo para o lado e fiz uma trança meio desajeitada enquanto minhas colegas conversavam sem parar "da minha sorte em receber uma camiseta do Karl e blá blá semi deus".

Sai e só então ele me olhou nos olhos. Se apresentou e, mais uma vez, me pediu desculpas. Eu disse que estava tudo bem e que aquele vestido era velho (quando na verdade eu havia comprado para meu aniversário, no mês anterior). Então eu recebi o primeiro choque de encantamento vindo dele. O sorriso. Ele sorriu para mim e eu não sei como me mantive em pé após aquilo, mas parecia que meus pés estavam pisando em lama ou em areia movediça.

Ficamos andando lado a lado durante o evento e mais ou menos as 22h ele se ofereceu para me levar em casa. Caminhamos silenciosamente durante as quatro quadras percorridas até que eu parei, o olhei e perguntei:

- Por que você não me olhou enquanto me oferecia a toalha ou, depois, a blusa?

Ele ficou vermelho, pude ver mesmo estando completamente escuro na rua.

- Seu, seu vestido estava transparente e eu não queria ser indelicado.

Só então me dei conta de que meu sutiã bege e minha calcinha branca haviam ficado ensopadas com o suco, jurei odiar aquele tecido fino e leve pelo resto da minha vida. Devo ter ficado vermelha porque logo em seguida ele me agarrou pelos ombros e, olhando fixamente nos meus olhos, me disse:

- Em momento algum eu lhe desrespeitaria, mesmo que eu quisesse desesperadamente lhe beijar agora, eu não o faria se isso lhe causasse constrangimento ou repulsa. Ao contrário do que pode parecer - ele disse me calando - eu não compro a companhia de ninguém, principalmente de mulheres, ficam comigo se quiserem e gostarem de mim. Não tenho nada mais que isso que você pode ver. Eu sou somente o Karl, com seus defeitos e limitações.

Que limitações? Eu pensei, aquele homem era perfeito! Mas, logo depois eu descobri que ele tinha uma doença que poderia o matar a qualquer momento. Por isso, mesmo sendo contra os méditos, ele praticava todos os tipos de esportes, estudava filosofia e estava prestes a se formar em Direito. E eu lá, nas minhas aulas de francês e literatura. O que eu seria além de uma professora de primário para crianças que sequer entenderiam o que era o francês.

Naquela noite nos beijamos. Depois do quinto ou sexto encontro proposital nós fizemos amor na grama, embaixo de uma macieira, como nos tempos antigos em que a humanidade era livre. Ele me despiu cuidadosamente e beijou cada parte do meu corpo com devoção e paixão. Meu corpo queimava mais a cada beijo, toque ou olhar. Era quente sem ser vulgar e romântico sem ser piegas.

Só que, Karl era frágil. Quando me pediu em namoro eu pude ver a insegurança nos seus olhos, no seu toque. Ele sabia de algo que eu nem imaginava. Quando completamos um ano juntos e a minha felicidade não tinha fim ou tamanho, descobrimos que eu estava grávida de dois meses. Ele estava se formando naquele verão e já tinha planos de abrir um escritório. Achamos um apartamento pequeno e acolhedor, os amigos nos ajudaram com mobilha de segunda mão e nossos pais com a mobilha do nosso quarto e do bebê. Minha mãe já fazia sapatinhos e mantas sem nem mesmo saber se seria menino ou menina.

Estava com cinco meses quando Karl teve o primeiro desmaio seguido de convulsão. Estávamos na cozinha e eu entrei em pânico, não sabia o que fazer primeiro. Por sorte os vizinhos ajudaram. Fomos para o hospital, depois de uma bateria de exames os médicos constataram que se ele tivesse outro desses poderia ser fatal ou poderia deixá-lo numa cadeira de rodas. Quando John estava com 1 ano e 3 meses, numa tarde comum no supermercado, Karl me entregou-o e começou a se escorar numa prateleira, fazendo todos os produtos caírem. Ele teve o segundo desmaio e a segunda convulsão.

Karl não voltou a falar, não tinha forças nas pernas também. Eu tinha duas crianças em casa. Alguns meses depois descobri estar grávida novamente. Todos me chamaram de louca por querer seguir adiante com a gravidez. O próprio Karl ficou furioso. Eu entendia o que ele queria só com o olhar e alguns sons. Karl sempre fora calado e com olhos expressivos. Nada mudara de fato.

Karl ficou estagnado nesse estado por mais dois anos, tendo poucas melhoras. Ele voltou a andar e aprendeu a língua de sinais, eu também. John andava de um lado para o outro fazendo gestos e a professora da escolinha nos contava que ele pouco falava de fato, mas sim "olhava fixamente, franzia as pequenas sobrancelhas e gesticulava com as mãos de forma ligeira e firme", era exatamente o que o pai fazia.

Meu marido, Karl, se suicidou em 15 de agosto de 1976. Foi o tempo de eu descer e pedir que o zelador me ajudasse com a torneira da pia que estava jorrando água para todos os lados. Ele ingeriu muitos calmantes, logo depois foi para o quarto e disse para John (que já entendia a língua de sinais) que iria dormir. Só me dei conta depois de duas horas, com um bilhete debaixo do travesseio onde ele estava deitado, frio e acinzentado.
Eu te amei intensamente e fui muito feliz. Você não precisa de mais uma criança para se preocupar. Não sou mais o que diziam de mim, sou um mero mortal num corpo que está apodrecendo. Vou olhar por você, pelo John e pela Lili.
Você sim foi uma deusa, como Parvati, cujas lágrimas deram vida ao filho de pano, com suas muitas mãos e com suas milhares de faces. Viva, não chore, siga em frente. Não há arrependimentos, nós fomos o que tivemos que ser, nada mais. Vou dormir e lhe aguardo no Olimpo, minha eterna amada.
Karl
O que posso dizer sobre meu falecido marido? Ele foi um verdadeiro herói para todos a sua volta. Viveu intensamente os bons anos de sua vida sempre ajudando que precisasse. Jamais se negava. Estava sempre ali com seus braços e pernas fortes e sua mente aguçada, e jamais esquecendo do seu coração puro e corajoso. Eu sempre soube que ele não era o tipo de cara que seria fácil lidar. Lembro dele todos os dias, com carinho e saudade enquanto vejo meus filhos cada vez mais parecidos com ele. Lili tem seus cabelos e as bochechas que a entregam. John tem os olhos centrados e a altura. Será um homem grande, e eu, cada vez menor, mais velha e mortal, enquanto Karl será para sempre imortal na nossa memória.


Esse conto faz parte do desafio Imagem + Palavra do Interative-se
A imagem está no início e a palavra é Fragilidade

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Naquela vida em que eu só sabia ser feliz


Naquela vida em que eu só sabia ser feliz, passava os dias com a minha flauta para lá e para cá. Papai me dizia: "Filha, nem tudo são flores, tome cuidado para não deixar a tristeza de lado por muito tempo, ela pode vir atrás de você!" Só que eu não entendia nada daquilo. Queria mesmo era ser feliz com todas as minhas forças e nada, nem ninguém iria me impedir. Eu dançava, corria, cantava, pintava e todas as coisas que me eram permitidas fazer. Todas elas eu fazia. Tinha sede de viver

Casei. Quando tinha meus 18 anos, quase muito velha pra casar, me apaixonei, ele era lindo e radiante, talvez com tanta vontade de viver quanto eu. Pele aveludada, olhos da cor do grão de café, cabelos negros como o pelo de um leopardo. Em outra vida devia ter sido um, seu olhar me paralizou como um desses animais paraliza sua preza que não sabe se fica e aceirta a morte ou se arrisca tudo e corre. Essa foi a minha sorte, eu corri. Corri para seus braços, de onde jamais gostaria de sair. Casamos por amor. Meu pai permitiu. Não era algo comum, normalmente os pais escolhiam com quem os filhos iriam se casar e o amor viria aos poucos. 

Sei que todos estavam temerosos com o casamento. Do mesmo modo que eu costumava correr para as coisas, costumava também correr para longe delas. Nunca fui apegada a nada além da minha liberdade e da felicidade de viver a vida intensamente nos seus mínimos detalhes. Esse foi meu grande erro. 

Engravidei, mas não queria estar grávida. Tirei. Ninguém nunca soube, nem do seu inicio, nem do seu fim. Então depois de alguns meses novamente. Voltei a tirar. Não sei quantas vezes fiz isso. Era jovem, tinha tempo para dar um filho ao meu marido. Nós éramos felizes como estávamos. Quando completei 21 anos todos estavam esperando que a qualquer momento eu anunciasse a gravidez. Foi quando ela veio. Minha sogra contara quantos dias haviam se passado e chegou ao pé do meu ouvido "fazem 40 dias que seu ciclo não desce". Eu sabia, estava esperando e ponderando se aquele deveria ser o momento. Fingi estar feliz, ela anunciou para todos que eu carregava a quarta geração da família no ventre. Meu marido não se aguentava de tanta felicidade. 

Eu fui mimada, ganhava tudo nas mãos, não me deixavam fazer nada que envolvesse correr ou pegar peso. Eu era infeliz assim, privada das coisas que mais amava. Naquele dia de verão, quando o outono se aproximava eu senti uma dor muito forte no ventre. Senti um liquido quente descendo por entre minhas pernas. Eu estava perdendo o bebê. Chamaram o médico, a curandeira, todas as mulheres ficaram a minha volta. Estava tudo bem comigo, mas o bebê havia ido embora. Pediram para eu não engravidar novamente tão cedo, mas eu não ouvi. No outro mês estava tão feliz que me deitei com meu marido de forma mais íntima e intensa, engravidei novamente. E, novamente vim a perder. Foram 20 meses tentando, um aborto atrás do outro. Eu não segurava os bebês. 

Certa vez perguntei para uma velha senhora se isso poderia ser causado pelos constantes abortos anteriores, ela disse que provavelmente não. Que era mais garantido que eu pensasse que a criança sabia que eu não a queria. E eu realmente não a queria. Portanto, quando ela começava a ficar madura, se soltava do pé, caindo por entre meus pés em forma de sangue e líquidos. 

Aos 23 anos meu marido casou-se novamente e eu fui devolvida ao meu velho pai. Ele foi obrigado pela família a fazer isso. Eu já não era nada feliz. Não cantava, não dançava, fazia somente o que me era pedido em silencio e resignação. Eu desgastei a porção de alegria e irresponsabilidade da minha vida. Hoje, consigo ver que a tristeza realmente veio me buscar, de tanto que eu fugia de seus olhos atentos e inteligentes. 

"Não tenham medo crianças", eu sempre digo para meus sobrinhos. "A tristeza sempre chega, sempre te encontra, então, apenas viva a dor, sinta-a no momento que ela tiver que ser sentida, nem mais, nem menos. Aprendam a não temer seus paços pesados e desengonçados. Andem ao seu lado e lhes falem sobre suas dúvidas e desamores, ela sempre nos entende"

Isso não é uma história sobre aborto, filhos, felicidade por ser mãe ou uma mulher completa. Isso é apenas um relato de quem não se manteve atenta as suas próprias oportunidades de ser humana. Uma história de alguém que fugiu todos os anos da tristeza e da dor. Alguém que foi contra a lei natural da vida que diz que a dor deve ser sentida


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Palavra: Delícia
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Onde há amizade, há amor!


Era uma vez, quando o mundo era mais mundo e mais bonito do que é agora, quando as plantas e os animais não eram inferiores e eram chamados de lit. Os lits eram criaturinhas translucidas, sem uma forma específica, mas algumas características eram marcadas conforme a forma das quais eles nasciam. Haviam aqueles que nasciam das águas e do coração de luz que gerou toda a vida, aquelas que nasciam das folhas, das raízes ou da terra, tinham os delicados que nasciam das folhas e do vento, ou os que nasciam do centro dos vulcões, os das pedras e por assim iam as coisas.

Certo dia eu pude presenciar o amor surgindo em dois pequenos lits, uma bela das pétalas e um gentil da terra. Vi sua amizade crescendo, simples e verdadeira, até explodir em fagulhas de luz com um pequeno toque que gerou tanta luz como uma estrela explodindo no universo! Era assim que acontecia o amor de almas com os lits, esse amor era diferente do amor universal que vibrava na terra, que todo vivente conhecia tão bem.

Os dois pequenos andavam lado a lado, eles brilhavam e o ar ao seu redor era doce e fresco como mel e o vento pós chuva no quente do verão. As folhas sutis que pendiam na pequena cintura da mocinha, os fios de luz e orvalho que eram seus cabelos, os lábios como um botão de uma minúscula flor. Ela deslizava sob o ar. Já o jovenzinho, maciço, quente, ligeiro na sua calma despreocupada. Por onde andavam uma nova relva verdejante surgia.

Tudo era lindo naqueles dias, as noites eram iluminadas, não eram escuras como as que nós conhecemos hoje. Era fresco, o crepúsculo brindava com o dia. As nuvens no constante azul, rosa e laranja. Era a terra do verão. Até aquele dia em que tudo tornou-se como é agora.

Estávamos com nossos afazeres, quando nos comunicaram que seres precisavam de nossa ajuda. Crianças perdidas no universo que aguardavam pelo nosso apoio e esperavam ser acolhidas.

Estava tudo certo, até que aquela bola de luz veio se aproximando, só que quando chegou perto o suficiente para vermos que a carruagem que vinham era feita de lava pura que guardava formas negras, eu diria que até disformes, deformadas pela tristeza, desamor, o mal e a ganância. Quis gritar e voltar atrás no que disse, eles acabariam com toda a beleza que havia aqui.

Quando a carruagem aterrissou pude ver seus pés finos e compridos surgindo entre a multidão de pequeninos. Eles tinham pelos, garras, prezas e chifres. Quando andavam o chão todo tremia. Alguns, poucos, ao entrar em contato conosco desabrocharam em luz e leveza. Explodiram em fagulhas ao encontrar seu par. Dois pequenos seres das águas, duas fagulhas de luz e vento dançando nos céus. Por anos esse dilema se estendeu. Foi quando senti as mudanças.

Uma camada estranha surgiu na superfície, hoje eu sei que se chama terra, a terra que nós conhecemos. O ar ficou pesado. A raiva tomou conta do meu ser. Além de descumprirem as regras, eles haviam levado consigo os lits bondosos e ingênuos. Em poucos milênios tudo virou escuridão. Garras, prezas, cortes, carne, sangue. Ainda, hoje eu semeio a simplicidade, o amor e a bondade. Ainda vejo o amor explodir em fagulhas, o beija-flor e as suas amadas. A terra que tudo brota. E eu, continuo aqui, esperando o tempo em que seremos novamente seres de luz, amor e sutileza. Eu sou Gaia e deixo um pouco da minha história e da de meus habitantes do reino animal, vegetal e mineral.

Obs: Segundo o tradutor do google, lit significa iluminados(a).

Esse post faz parte da blogagem coletiva relâmpago Imagem/Palavra do Interative-se! 
As palavras norteadoras são Simplicidade/Amizade.
A imagem motivadora está no inicio do post.

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Naquela manhã, 2 de abril.


Sinto frio, muito frio. Puxo as cobertas e me enrolo mais. Não resolve muito, porque falta algo. Algo que me envolveria num abraço quente, quase febril. Algo que me tiraria as cobertas e me cobriria com pernas, braços e um tronco grande. Apesar de não estar ali fisicamente seu cheiro está em todo o lugar. Acho que é alguém lá no céu que está me torturando. Abro os olhos, ainda pesados e doloridos de uma noite mal dormida. São 8h30min, ele diria que é muito cedo para fazer qualquer coisa. Era realmente muito cedo para bancar a garota forte, sorrir e seguir de cabeça erguida. Faço uma varredura no quarto escuro para lembrar da situação que o havia deixado na noite passada. O gato comia o resto de pizza que estava em cima da escrivaninha, haviam copos de vinho espalhados por cada canto, banco, mesa ou prateleira. A garrafa estava no chão junto com meu cobertor de casal e umas roupas.

Já fazia uma semana. Uma semana sem aquela voz suave no meu ouvido a cada passo que eu dava pela casa, ou quando estava quase dormindo. Uma semana sem os beijos de bom dia e os sorrisos ao esperar a avaliação sobre o almoço estilo Masterchef. Uma maldita semana sem nenhum dedilhar no violão ou sentindo os dedos ligeiros fazendo voltas em cada cacho do meu cabelo espesso. Sem contar nas suas incríveis habilidades de fazer rir das coisas mais banais. Do fato de ele saber mais línguas das quais eu sonharei em aprender. Tudo isso não deixou nada mais fácil quando ele disse que seria melhor para nós dois, “conhecer pessoas novas é bom, sei que você vai conseguir, logo nem se lembrará de mim” foi o que ele disse. Sabe, ele estava longe de ser perfeito, mas era o meu pedaço imperfeito do paraíso e eu não queria que acabasse assim. Nem assim nem de qualquer outro jeito.

Depois de me perder em devaneios durante 15min decido levantar, tropeço na pilha de roupas. Junto-as e vou em direção ao banheiro. Minha cara está um caos. Nariz vermelho, lábios mordidos, olhos num tom marrom-azulado e inchados. Lavo meu rosto umas duas vezes com água gelada. Não resolve muito, mas decido deixar assim. Tomo um café olhando para a janela, à luz da rua era clara demais, então me encolho um pouco no sofá. O que me lembra de que não fazia muito tempo desde a ultima vez que ele estivera aqui e era torturante. Seu cheiro estava em todos os cantos do meu pequeno apartamento bagunçado. No sofá. No banheiro. Nas roupas de cama e nos meus pijamas. Até nos panos de prato da cozinha. Respiro fundo “acho que um banho vai me fazer melhor”, penso.

É quando esbarro na jarrinha de metal que ele me deu, eu coloquei flores artificiais porque não consigo cuidar de coisas que necessitam de muita atenção. Lembro quando deixei meus cactos morrerem, um secou e o outro acabou apodrecendo no mesmo vasinho, sendo que normalmente eles são fáceis de cuidar. Não sei como ainda estou viva, com tantos desastres. Então paro e lembro:

– Era ele que me fazia permanecer viva. Era ele que cuidava de mim. Digo num sussurro.

Peça por peça minhas roupas caem no chão. A banheira antiga já está cheia. Me sento com cuidado. A banheira se tornou muito espaçosa sem suas pernas grandes e as coxas grossas. “Por quê você me deixou, hein Felipe?”. As lágrimas escorrem sem esforço algum. Então eu mergulho. Vejo tudo turvo. Não há mais lágrimas. Apenas a lembrança de como nós éramos.

O primeiro encontro num café bonitinho no centro da cidade. O segundo encontro no ônibus, quando eu meio sem jeito sentei longe com medo de parecer desesperada para vê-lo novamente. Ele saiu do seu lugar e foi sentar comigo. Nós nos beijamos depois. A nossa primeira vez. Não sei quem estava mais nervoso e bancando o autoconfiante. Quando ele me apresentou para os pais. Quando eu o levei na casa dos meus. E finalmente no dia que decidimos que ele moraria aqui. Foi tão natural: “Eu vou te emprestar umas panelas”, “Posso deixar umas roupas aqui?”, “Alô? Oi Jô, acho que deixei minha escova de dente aí, pode conferir pra mim?” e então vieram os livros, os calçados, e o resto do quarto que era necessário. E um belo dia ele percebe que era jovem demais para “tudo isso”. Que precisava viver. Precisava do espaço dele. Da vida dele. Da solidão.

Eu disse: “ok”, mas no fundo eu queria dizer o quão idiota ele era e como conseguia ser egoísta ao ponto de só pensar no seu próprio umbigo! Acho que era isso que ele queria. Mas, eu, tola, não sou do tipo que faz o que as pessoas esperam de mim.

O ar está indo embora dos meus pulmões. Será que o gato vai saber se virar e achar uma casa quentinha, com comida e amor de sobra? Minhas contas vão acumular embaixo da porta? E quando meu celular não tiver mais bateria e ninguém mais conseguir falar comigo e se der conta de que a minha vida foi embora?

Então ele toca. Aquela música irritante. Eu levanto. Meus pulmões ardem por ficar tanto tempo sem ar. Olho a tela que estava acesa em cima do balcão da pia. Era ele.

– Oi... Felipe.

– Jô, oi, é... quer tomar um café? Um grande segundo se passa. – Alô?

– Oi. É... hmm. Não sei. Eu... Eu não esperava por isso, então, não sei.

– Tá, eu posso esperar, mas, não demora muito. Não quero que o café esfrie e as flores murchem. Havia um sorriso na sua voz.

– O quê?

– Só abre a porta Jô! Oxe! Cê tirou a chave reserva que estava embaixo do tapete da entrada. Eu pisco várias vezes até entender o que estava acontecendo, mas meu cérebro se recusa a cooperar depois de tanto tempo sem oxigênio.

– É que eu tô no banho. Me dá uns minutos. Me apresso pra pegar uma toalha e sair da banheira.

– Tá. É a resposta que eu ouço de longe. Corro ainda molhada, com o cabelo pingando, de pés descalços e enrolada na toalha. Abro a porta e lá está ele. Naquela camiseta preta que ele adora e que eu também. Com o cabelo desgrenhado pela ansiedade e os dedos nervosos. Ele tem flores de verdade nas mãos e uma térmica de café.

– Vim saber se você estava bem. Ele olha ao redor. Acho que a casa sente a minha falta, tem uma calcinha na mesa Jô!

Eu ri. Ele entrou, ainda meio tímido. Eu sabia o que o silêncio mascarado não queria dizer. Ele também sentiu saudade. 

Este post faz parte do Desafio Imagem & Palavra do Interative-se! Eu recebi a imagem 7, que está no início do post e me serviu de inspiração. Queria agradecer ao meu namorado também que foi usado de modelo e porque ele vai pra praia ficar 20 dias longe (isso me deixou meio jururu e eu resolvi escrever um pouco sobre).
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