Ser adulto tem receita?


Não sei se era Vygosky ou Piaget que dizia que as pessoas são o resultado do meio onde vivem e o que aprendem e sentem. Bem, eu sou uma pessoa psicologicamente afetada, diga-se de passagem. Tenho cá meus problemas e limitações afetivas, também tenho um grande problema: sempre confundo Vygotsky com Piaget (risos).

Exatamente, digam, o que é ser adulto? Porque acho que estou em mais uma de minhas crises existenciais onde me pergunto “o que estou fazendo da minha vida?” e “isso está correto, ou estou sendo egoísta, egocêntrica e filha da puta?” com o perdão da palavra! Ser adulto é ficar em um emprego ruim ou que já não está te fazendo bem, só porque paga suas contas? Ser adulto é ficar em um relacionamento que caiu na mesmice, mas mesmo assim, você deve continuar, porque um relacionamento é uma constante construção e adaptação? É se anular ou ficar dando burros em ponta de facas? É se apegar a alguém que só suga suas energias por medo de magoar o outro e por reflexo, se magoar e cair no sentimento de perda e auto piedade?

Se isso é ser adulto, prefiro ser qualquer outra coisa, menos essa versão irresponsável e desleixada com sua própria vida emocional e saúde mental. Nós nos negligenciamos por conta de uma sociedade carente afetivamente e capitalista em demasia. Nós buscamos dinheiro, muito dinheiro para aproveitar a vida, mas para ter dinheiro não se pode ter tempo ou perder tempo aproveitando a vida. É necessário trabalhar demais para ter dinheiro, e eu não consigo ser assim, então sou rotulada de irresponsável, jovem e sem preocupações etc.


Porque eu não consigo ficar em um lugar que me sufoca, com pessoas desrespeitosas eu sou a louca, que não consegue se acostumar ao sistema, porque “é sempre assim, tu vai ter que te acostumar”, mas veja bem, eu não quero me acostumar a ser um robô que repete os atos errados dos outros.

Eu sou tachada como chata, mandona, porque eu não gosto de gostar de quem me quer bem, porque eu trato mal e piso em quem me ama. Porque eu termino meus relacionamentos quando está começando a ficar ruim, porque eu não insisto, não tento me adaptar, porque não sou flexível. Me digam, como ser flexível se falo pra quem eu quero bem, “não faz isso/assim porque vai acontecer isso” e ela faz, e depois vem com o rabo entre as pernas me dar razão e se fazer de coitadinha. Haja paciência, e isso é algo que sou desprovida.

Não gosto da mesmice de relacionamentos “longos” (6 meses ou mais), porque as pessoas param de sugerir lugares, posições sexuais diferentes, filmes e comidas diferentes, é só a mesma coisa que ela sabe que tu gosta, mas se ela não sugerir, tu não vai saber. Outra, eu canso de tentar coisas diferentes e a pessoa não se mobilizar nem para pedir privacidade no lugar onde mora. Eu gosto de privacidade. E tem mais, eu gosto de ficar sozinha no meu quarto, com os meus livros e as minhas músicas e incensos. Não gosto da muvuca, de grandes reuniões.


Não sou e nunca serei aquele tipo de pessoa que vive para o ser amado, eu tenho a minha vida e os meus amigos, os meus parentes e os meus pais. E eu sinto falta de sair só com eles, de viver a vida. Não que eu não queira ver a pessoa amada, quero e muito. Mas, não o tempo todo. Isso me cansa, porque ela fica ali parada, não se enturma, não conversa, ou quando conversa, questiona absolutamente tudo sobre religião e exoterismo, e pelo amor dos deuses, não podemos citar política, porque aí o papo fica monopolizado.

Me sinto uma megera insensível dizendo tudo isso, ainda mais pós longa conversa com a minha querida mãe que defendeu meu ser amado, acho que ela se esquece que eu sou a filha dela e quem deveria ser defendia e entendida sou eu, não ele. Também, nada de anormal, dois acomodados, uma defendendo o outro. Não consigo gostar dessa situação emocional/social das pessoas que param no tempo e aceitam suas condições de “vou fazer o necessário para viver bem, e só, só quero viver na paz”. Meu bem, não é bem assim, não vamos nos limitar.

Choro, choro mesmo, só de pensar que posso nunca crescer conforme essa sociedade espera, será que serei uma eterna solitária feminista independente e dominadora? Será que nunca conseguirei ter filhos correndo pela casa e um marido para esquentar a cama/ um chá/ a comida/ a vida para mim? Será que meu destino é ser fria e solitária? Ou viver na espera do “alguém certo” pra mim? Porque quando algo não está dando certo vem mil e uma pessoa dizer que “um dia tu acha o cara certo” ou “o curso certo” “o emprego certo” será que existe “o planeta certo” também? Porque eu me sinto fora de contexto, meio sem chão, com um senso irrefreável de liberdade de me expressar, de sentir, de viver, de amar, e as pessoas impõem normas e regras o tempo todo.


Sou uma piranha insensível ou ingênua demais em pensar que posso sair por aí sendo amiga de ex namorado que vai ficar tudo bem? Que posso amar quem eu quiser, que serei amada e compreendida de volta? Que é possível um relacionamento sem mesmice, e veja bem, não é rotina, eu gosto de rotina, às vezes. Não gosto de falta de interesse, de falta de criatividade, de falta de respeito, falta de empatia, falta de privacidade, falta de espaço, falta de puta que pariu, tantas coisas!

Mas sim, sei que estou exigindo demais de um cérebro com poucas sinapses, apesar de uma quantidade significativa maior de neurônios, como o do homem. Não sei o que é pior, o bicho mulher ou o bicho homem. Ou pior ainda, o bicho sociedade capitalista rotuladora, preconceituosa, intrometida e excludente. Afinal, se você não entra no grupo, no meio, no conjunto, é considerado estranho e é deixado de lado. É tratado como qualquer um, e eu já estou cansada disso. Sou uma velha de vinte e um anos, com uns três cabelos brancos e olheiras causadas pelo sono e o café de um dia inteiro escrevendo com um copo de café ao lado.

Enfim, se alguém tiver um mapa, uma tabela ou uma dica de como ser adulto. Se eu estou muito ou muitíssimo errada com meu modo de pensar. Se minha vida é uma porcaria ou se eu dramatizo demais mesmo. Por favor, escrevam, enviem, por carta, email ou sinal de fumaça. Porque eu já não sei mais o que é esperado de mim, ou de um adulto, ou de uma mulher. Não sei se devo ou não ligar para isso. Se devo mandar tudo para os ares ou simplesmente deixar estar, como a vida quiser que seja. Ou melhor, me enviem números de psicólogos, psiquiatras e clinicas de tratamento, acho que preciso me internar.

Abraços calorosos de quem deseja o bem à todos aqueles que não pisam no meu calcanhar no ônibus lotado.


Ps: É Vygotsky sim. 

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