Página Arrancada


Arranquei uma folha do meu diário e a joguei pela janela. Esperava justamente que alguém a lesse e entendesse um pouco dos sentimentos das pessoas. Uma semana depois, no jornal dominical havia o seguinte título em uma coluna, “A página arrancada”. Percebi que se tratava da minha “página arrancada”, então parei para ler. Sentei no meu sofá, cujo espaço era perfeito para meu tronco, braços e pernas encolhidos embaixo de uma coberta de lã.

A coluna falava exatamente da ultima folha do meu diário, este, do qual jurei nunca mais escrever, não somente para mim, a partir daquele instante eu escreveria para todos, pois assim, todos entenderiam e saberiam que alguém, talvez muito longe dali, o entendia. A matéria começava assim.
Semana passada, enquanto andava na rua ouvindo música distraidamente, uma folha de caderno bloqueou minha visão, irritado peguei-a e no impulso de amassá-la, parei por um instante e vi que se tratava da data exata do dia, como não resisto a uma boa leitura a dobrei e coloquei no bolso. Chegando à redação, acomodei-me em minha mesa tirando o papel do bolso e comecei a lê-lo. Dizia o seguinte:

‘22/ 08/ 12 – Como tudo terminouOlá, seja lá quem estiver lendo, me chamo Lúcia e esta é a ultima vez que escrevo algo só para mim, quero compartilhar algo com você, peço paciência, obrigada.
Foi no ano passado, quando tudo começou. O conheci por meio de amigos, via-o somente de longe, achei-o interessante, porém só fui puxar assunto algumas semanas depois. Estávamos na rua, eu sozinha como sempre e ele acompanhado de um amigo, seu cabelo estava diferente, havia cortado, chorei por dentro, pois seu cabelo era tão bonito comprido. Andei mais rápido para alcançá-los até que perguntei “por que cortou o cabelo, era tão bonito?”, ele me respondeu espantado que cortara por causa do trabalho, ponto assunto acabado, ri e o amigo dele também, lhe lembrei que era amiga de uns amigos dele e ele soltou um breve sorriso desconfiado, corei e disse que tinha pressa, dei tchau e fui embora, sem dúvida, devia ter me achado uma louca.
Passaram-se algumas semanas, ele se aproximou de mim em uma festa, trocamos números de telefone, começamos a nos falar com mais freqüência, ficamos amigos, estávamos sempre juntos. Indiquei alguns livros para ele, ele algumas músicas para mim. Os meses se passaram rápido demais, tivemos alguns relacionamentos frustrantes, cada um chorou no ombro do outro em certos momentos. Eu me preocupava muito com ele, considerava-o importante demais, tinha até um tanto de ciúmes quando aparecia com uma garota nova, que logo o magoava.

Um garoto que eu estava namorando terminou comigo por ciúmes de nós, da nossa amizade. Éramos muito íntimos, chorei tanto, fiquei tão brava, mas ele estava lá, ele sempre esteve! Até que chegou uma manhã, ele estava na minha casa, havia me acordado em pleno domingo, eu estava fazendo café e ele arrumando os fios do vídeo game, quando me dei conta que o amava em segredo há meses. Não havia notado antes, mas toda aquela preocupação e todo aquele ciúme não eram normais.
Com cuidado levei uma xícara para ele e mantinha a minha entre os dedos da outra mão. Acho que te amo, disse baixinho, seus olhos voltaram para mim espantados, ele pegou a xícara e se sentou, ainda boquiaberto. Seus lábios se abriram, tentando falar algo, mas calou-se novamente, até que soltou “Porque disse isso? Está brincando comigo, não é?”. Não, certamente eu não estava brincando com ele, voltei a dizer “Acho que te amo, veja bem, me preocupo excessivamente contigo, tenho ciúmes quando anda com outra garota e sinto sua falta a cada instante, se isso não for amor, não sei o que pode ser!”.
Naquele instante ele soltou a xícara e veio em minha direção, sentou-se aos pés da poltrona da qual estava sentada e me disse “Então me beija, se me ama”, gelei olhando para aqueles olhos castanhos cor de chocolate. Larguei minha xícara também, sentando-me ao lado dele no chão, meu coração poderia saltar por entre meus lábios, estava nervosa demais, minhas mãos tremiam e mesmo assim pus uma delas em sua nuca e acariciei seus cabelos negros. Não tinha olhos para mais nada além dele, sua mão pousou na minha cintura, então nos aproximamos parando a centímetros dos lábios se tocarem, os olhares se cruzaram e os lábios uniram-se, num beijo demorado e de parar o coração, se pudesse prolongaria aquele instante por mil anos.
Tínhamos um namoro, mais amizade do que namoro. Algumas semanas depois de termos encontrado o amor, unimo-nos, ele me passou a confiança necessária para que eu o desejasse do modo que se não o tivesse poderia sufocar. Tomamos banho juntos, lavei seus cabelos e ele os meus, deitamos no sofá e ficamos ali, sentindo o calor um do outro, adormeci.
Acordei quando as brigas começaram, as discussões por ciúmes, ciúmes vindo dele. Éramos muito felizes, mas ao mesmo tempo tão infelizes, fazia de tudo para não brigarmos, mas sempre havia um motivo do qual eu nunca sabia, mas eu sempre tinha culpa por deixá-lo com raiva, ciúme, “vontade de matar alguém”.
Até que chegou o dia que não aguentava mais, brigávamos todos os dias, eu andava no trabalho feito um zumbi, mal comia, só dormia, estava fraca e deprimida. Terminei, não foi uma escolha fácil, na verdade a mais difícil que eu fiz, ele chorou, eu chorei, voltamos umas três vezes, aceitei a promessa de não haver mais brigas, porém sempre havia.

Mas a ultima briga foi a gota d’água, não vem ao caso o porquê, quando e como, só importa que terminamos de vez, embora o amasse loucamente. Chorava todos os dias, ainda choro, mas com menos freqüência. Fui a casa dele uma semana depois, tive uma recaída, ele estava frio comigo, chorei na frente dele e provei que o amava, que o motivo do qual havia terminado era porque não tínhamos sido feitos para ficar juntos, infelizmente.
Meu aniversário se aproximava e eu pedi que ele tocasse para mim, meio a contra gosto ele tocou uma música que tinha ouvido uma vez apenas, chorei ainda mais, porém ele sorria. No instante em que o olhei fixamente ele me roubou um beijo, o ultimo, a despedida, chorei como se as torneiras de lágrimas estivessem abertas.
Transamos, foi um erro da minha parte, acho que tudo foi um erro meu, do começo ao fim, minha culpa. Se não tivesse dito que o amava nada teria começado e sem um começo não há um fim. Nos afastamos depois disso, ele tentou se aproximar, porém eu não deixei, não podia, se não eu correria o risco de querer voltar.
Um mês depois de cortarmos contato soube que ele estava namorando outra garota. Ele, que havia me jurado amor, ele que disse que me amaria para sempre e que nunca se esqueceria de mim, estava chamando outra garota de “princesinha, gatinha e baixinha”.
O homem que eu amei, sendo como amigo, irmão ou namorado, havia morrido e permanecia apenas em minhas lembranças. Ainda o amo, mesmo tentando reconstituir minha vida e aceitando convites de outros caras para sair. Fico pensando se fui eu quem criou esse monstro, ele mudara muito desde que o conheci, muitos haviam dito isso.
E o pior de tudo é que eu o odeio, odeio o fato de não poder o odiar, odeio o fato de o amar tanto, com todos os seus defeitos, mesmo estando com outra, mesmo não estando morto como em meu coração.

Criei um blog e vou começar a escrever lá, um caderno velho abriga muitos sentimentos, é perigoso ele pegar fogo e minhas palavras serem perdidas, pelo menos em um site, um passa para outro e assim meus sentimentos passam de coração em coração aliviando esta dor conhecida, porém nunca admitida.

Obrigada, querido estranho, por ler esta página arrancada, não somente de meu diário, mas de minha alma e de meu coração.’

Não agradeça, querida Lúcia. Peço que se for possível, entre em contato comigo, sua história é linda, porém sofrida. Boa sorte daqui em diante e não chore mais. Até a próxima semana, com uma nova coluna.

Então, senhor colunista, obrigada por levar a milhares de pessoas minha história, espero ter acolhido em um abraço muitos corações sofredores, porém prefiro não ser identificada, espero que ele leia isto e se lembre de nós, que seja muito feliz e que siga sua vida, como estou fazendo com a minha.

Como diz em um livro que estou lendo:

“Aprendi que amar não significa estar junto, mas sim querer ver a pessoa feliz, mesmo que isso custe a sua felicidade.” 

4 comentários:

  1. Fiquei até sem palavras Mury-chan, nossa lindo demais e ao mesmo tempo triste, sofrido! Parabéns pelo belissimo texto amiga! Adorei!

    Bjs

    daimaginacaoaescrita.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada Sammy :)
      Sabe né, eu escrevo com o coração, feliz ou infelizmente!

      Excluir
  2. Muito, muito bom mesmo esse texto! Confesso que tenho preguiça de ler demais, mas esse texto me cativou, me chamou a atenção.
    Isso realmente aconteceu contigo?
    Bom, gostei muito, afinal.!
    Beijos :D

    ResponderExcluir

Deixe um comentário aqui!
Comentário sujeito a moderação.

Era uma vez, uma menina... © Copyright 2011 - 2016. - Versão 9. Little nymph. Ilustração Martina Naldi. - Original de Muryel de Oliveira. Tecnologia do Blogger.